• Rachel Hauser Davis

Você sabia que bílis de peixe pode ser usada como um eficiente indicador de contaminação ambiental?

Caramba, bílis de peixe! Muito específico, né?! Vamos entender!


O biomonitoramento é amplamente utilizado para medir a “saúde” dos ecossistemas. Este tipo de estudo envolve o uso de organismos vivos, tanto fauna quanto flora, para avaliar a presença de contaminantes ambientais nos diversos compartimentos ecossistêmicos. Isso pode ser feito tanto qualitativamente, investigando mudanças bioquímicas, celulares e/ou fisiológicas em organismos expostos, quanto quantitativamente, medindo o acúmulo de substâncias químicas em tecidos diversos dos organismos avaliados. Aliados aos parâmetros físico-químicos do ambiente, a investigação e análise de diversas características dos organismos presentes em determinados ecossistemas vem sendo recomendada nos últimos vinte anos, para fornecer um quadro completo de modificações ocorridas nos diferentes ecossistemas.


Nos ecossistemas aquáticos, os peixes em geral são responsáveis por grande parte da dinâmica de diferentes poluentes, pois são tanto consumidores quanto consumidos por outros organismos. Assim, os contaminantes presentes nestes animais contaminam a cadeia trófica inteira, até chegar aos humanos. Por isso, muitos esforços de biomonitoramento realizados ao redor do mundo analisam os contaminantes acumulados nestes animais.


Os diversos poluentes químicos e, em alguns casos, os seus metabólitos, podem ser detectados em diferentes tecidos. No caso de monitoramentos realizados em seres humanos, podem ser analisados sangue, ar exalado, cabelo, unhas, fezes, sêmen, leite materno, dentre outros, que podem todos ser obtidos através de procedimentos não-invasivos. No caso de peixes, porém, é muito comum analisar tecidos que requerem o sacrifício do animal, como músculo, fígado, rins e brânquias, dentre outros.

Assim, na busca de uma alternativa não-letal de análise de contaminantes em peixes, a potencialidade de uso da bílis de peixes em esforços de biomonitoramento vem sendo levantada nas últimas décadas, uma vez que muitos poluentes são excretados pela via biliar nesses organismos, como os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos, metais e metalóides, agrotóxicos, aflatoxinas e micotoxinas, e microcistinas, dentre outros.


A bile é uma secreção hepática que auxilia na digestão e absorção de lipídios do intestino por meio da ação de ácidos biliares ou sais biliares. É produzida pela secreção ativa de ânions orgânicos, fosfolipídios e colesterol e subsequente fluxo osmótico de água para o sistema de ducto biliar. Essa matriz é composta principalmente de lipídios e sais biliares, como fosfolipídios e colesterol, mas também inclui outros elementos como proteínas, aminoácidos, glicoproteínas, protoporfirinas, eletrólitos e pigmentos como bilirrubina e biliverdina.


Esta matriz biológica apresenta diversas vantagens comparadas com outros tecidos. Por exemplo, já está em estado líquido, facilitando processos analíticos de determinação de poluentes. Além disso, é menos complexa que outros órgãos utilizados em estudos ecotoxicológicos, e, principalmente, pode ser obtida por canulação crônica do ducto biliar hepático, método não-letal de amostragem que permite que o animal seja devolvido à natureza sem ser sacrificado. Além disso, como a bílis dos peixes é esvaziada da vesícula biliar a cada evento de alimentação, os poluentes presentes neste fluido biológico refletem exposições recentes, sendo muito útil para avaliar o cenário de contaminação ambiental local presente apenas poucos dias antes da análise do animal, não sendo afetados por fatores como migrações, por exemplo.


É interessante também observar que a vesícula biliar de peixes é muito utilizada como remédio popular na Ásia, especialmente na China, no Japão e na Índia, ingerida crua para tratar sintomas como diminuição da acuidade visual, asma e dor. O envenenamento após a ingestão deste órgão vem sendo relatado com maior frequência nos últimos anos, devido a presença de diferentes poluentes ambientais, como as ciguatoxinas, que são produzidas por um dinoflagelado consumido por diversas espécies de peixes com capacidade de acumular ao longo da cadeia alimentar. Estudos acerca de outros contaminantes nestes casos de envenenamento, porém, ainda são escassos.


Ainda que estudos acerca da excreção biliar para algumas das classes de poluentes supracitadas sejam ainda relativamente incipientes, este tipo de avaliação compreende uma ferramenta valiosa para aprofundar o conhecimento sobre a contaminação ambiental e seu biomonitoramento, permitindo também avaliar seus efeitos nos animais expostos, podendo ser aplicados a futuros esforços de biomonitoramento e medidas de conservação.


Rachel Ann Hauser-Davis

Bióloga, Mestre e Doutora em Química Analítica

Pesquisadora

Fiocruz


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