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Somos preconceituosos com outras espécies? Desmistificando o Especismo

Sabemos que o preconceito está presente na sociedade há muito tempo. Alguns vêm sendo cada vez mais discutidos na atualidade, como o racial, social, cultural, religioso, linguístico, sexual ou de gênero. Pouco se discute o especismo, que é a descriminação contra quem não pertence à mesma espécie. Podemos claramente concluir que é a espécie humana que pratica especismo contra as outras espécies. Você já conhecia o especismo?


Alguns animais são domesticados, e isso pode ser terrível. Imagine que você é um sabiá ou algum outro pássaro... Você poderia voar e desbravar o mundo, a não ser que algum humano decida te colocar numa gaiola para ouvir você cantar. Se você fosse um peixe, teria todo o vasto oceano para desbravar, a não ser que algum humano te coloque numa pequena caixa de vidro.


Os casos de especismo talvez mais identificados atualmente são referentes à 'comida'. Para comer, nós criamos diversos animais que vivem pouco e mal, além de terem uma morte sofrida e sem nenhuma dignidade. Vacas, bois, galinhas, porcos, peixes...


São muito famosos também os casos de uso de animais como coelhos e macacos para testes de produtos cosméticos. Basicamente, nós fazemos animais sofrerem para ver se podemos ficar mais bonitos/as! Uma breve busca na internet por 'exploração animal laboratorial' ou termos relacionados nos mostra fotos e notícias chocantes.


A grande maioria dos animais tem um sistema nervoso bem desenvolvido, ou seja, podem sentir dor, medo, prazer, alegria e outras diversas sensações, assim como os humanos. Para alguns animais é mais fácil notarmos essas sensações do que outros, como em cachorros e macacos em comparação com alguns peixes 'sem feições'. Mas todos sentem tudo isso.


Então, o que diferencia as sensações dos seres humanos e dos animais? Por que não comemos um bebê humano, mas comemos nuggets e bacon? Por que o sofrimento de um bebê humano nos impacta mais do que o sofrimento de um bebê porco ou frango, por exemplo? O sofrimento é o mesmo! Não é?


...Cientificamente e moralmente, sim. Você pode então ter surgido com um ou mais motivos que justificam de alguma forma essa diferença. Isso é o especismo, colocar a espécie humana à frente de todas as outras espécies.


"Mas humanos possuem capacidade emocional, e por isso, são superiores aos animais".


Diversos estudos indicam que animais são seres muito complexos e conscientes. Você já viu um vídeo triste ou bonito sobre a reação de animais ao reencontrarem seus donos ou se perderem de sua mãe?


"Mas precisamos da proteína animal em nossa alimentação"


É comprovado desde a antiguidade que nossa dieta é onívora, ou seja, pode incluir carne, mas não necessariamente necessita dela. Ainda, as proteínas que consumimos dos animais, eles consumiram das plantas. Muitos atletas famosos são veganos.


"Humanos são inteligentes e a maioria, e por isso, aprenderam a dominar os animais"


Se esse argumento fosse completamente válido, então seria aceitável se alguém dominasse ou comesse um bebê ou pessoas com menor capacidade cognitiva, pois somos mais 'inteligentes' que eles? Seria aceitável também o estupro ou a pedofilia, já que adultos são a maioria? Não, isso não é de forma alguma justificável. Já que esse argumento só se aplica a outras espécies e não a humanos, isso é especismo.


"Mas meu pet é bem cuidado"


Mas ele ainda vive preso dentro de nossas casas ao invés das florestas, ares e mares, não é? Qual humano que nós mantemos na coleira, gaiola ou aquário? Provavelmente, nenhum.


Este é um exercício bastante utilizado para encontrarmos o especismo, comparar o animal ao humano nesse detalhado nível. Talvez seja um pouco exagerado, mas assim podemos enxergar os animais como iguais, sem especismo.


Outro exercício para enxergarmos o especismo é comparar com outros preconceitos. Por exemplo, muitas pessoas utilizam a comum frase 'Não sou racista, tenho até amigos que são pretos' para tentar justificar atitudes ou pensamentos racistas. O mesmo se aplica para a homofobia, em 'Não sou homofóbico, tenho até amigos que são gays'. Quando ouvimos esse tipo de frases, sabemos que alguém está tentando justificar um preconceito. Em pessoas preconceituosas, a simpatia, empatia e solidariedade são seletivas. Pessoas racistas têm simpatia, empatia e solidariedade, mas apenas com brancos, assim como homofóbicos têm apenas com héteros e especistas apenas com humanos.


É importante lembrar que esse último exercício citado de comparação de preconceitos não serve para, de forma alguma, diminuir grupos de pessoas e lutas de movimentos anti-preconceitos em geral. A reflexão não é sobre tratar pessoas de certos grupos como animais! Muito pelo contrário, é sobre a sensibilização e conscientização de que animais são como humanos, e todos devem ser tratados com a dignidade que merecem.


O simples fato de comer carne nos faz especistas. Mas vai muito além disso. Mesmo que não comamos carne, ao irmos ao banheiro, podemos prejudicar animais marinhos, caso nosso esgoto não seja bem tratado. E no Brasil, não é. Ao tomar banho, podemos ser especistas, ao usar sabonetes ou shampoos que contribuíram ao sofrimento animal em sua fase de testes ou possuem contaminantes em sua composição. Ao irmos ao circo, usar cosméticos ou até ver um filme, podemos estar contribuindo com a exploração animal. Têm muitos hábitos do nosso cotidiano que cegamente nos fazem especistas.


É natural que você identifique diversas atividades de seu dia-a-dia que de alguma forma são especistas. Toda a nossa sociedade é. Um grande problema nisso é que a esmagadora maioria da população não é consciente sobre o fato de ser especista, e é isso que o sistema quer, pessoas confusas sobre esses assuntos. Dessa forma, é impossível ter algum senso crítico e traçar alguma mudança. E isso é muito triste. Se continuarmos assim tão especistas, o planeta vai ser muito diferente nas próximas gerações, e talvez até mesmo na nossa!


Você já refletiu sobre esse preconceito? Quais são suas ações especistas? Elas são mais controladas pelo sistema ou por você?


Referências

Rafael Vázquez García, María Sánchez Fernández. Antropo (andro) centrismo y especie. Ideología y naturalización del especismo en tiempos liberales. Eunomía Nº 12 (Abril 2017 – Septiembre 2017). https://doi.org/10.20318/eunomia.2017.3640

Cristina Grobério Pazó, Lorena Ferreira Carpes. A interferência do especismo no reconhecimento como sujeitos de direito dos animais não-humanos. Planeta Amazônia: Revista Internacional de Direito Ambiental e Políticas Públicas, n. 6, p. 13-29, 2014


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