• Flavia Barros

Reprodução assistida e doenças infectocontagiosas em animais

Biotécnicas são rotineiramente aplicadas no manejo reprodutivo de animais de produção como bovinos, suínos, caprinos, ovinos e até mesmo aves de forma a aumentar a eficiência na produção. São conhecidas também como técnicas de reprodução assistida e têm como objetivo principal a obtenção de maior número de nascimentos no rebanho em um determinado período. O uso de biotécnicas na reprodução animal não apenas promoveu uma marcante aceleração no melhoramento genético em rebanhos de diferentes espécies no mundo todo, como também teve importante impacto no controle da sanidade dos mesmos, principalmente no que diz respeito a doenças sexualmente transmissíveis, visto que o contato reprodutor-fêmea deixa de acontecer. Contudo, mesmo que a manipulação de gametas e até embriões seja completamente realizada em ambiente laboratorial, é importante conhecer muito bem as possíveis fontes de contaminação para que tais produtos sejam seguros e não vetores de patógenos. Vamos primeiramente entender como funcionam as principais biotecnologias aplicadas à reprodução animal. Uma das mais conhecidas e utilizadas é a inseminação artificial, técnica pela qual o sêmen de um reprodutor é processado de tal forma a permitir que várias doses possam ser produzidas a partir de um ejaculado e posteriormente introduzidas no trato reprodutor da fêmea para que ocorra a fecundação. Baseado nesta técnica, hoje temos um mercado expressivo no qual as chamadas centrais de inseminação mantém reprodutores de alto valor genético para comercialização de doses de sêmen aos produtores. Assim, milhares de doses de sêmen podem ser obtidas de um mesmo animal, que devido à utilização de técnicas de criopreservação, podem ser utilizadas na inseminação artificial por vezes muitos anos após sua morte. Outra biotécnica que também permite a disseminação rápida de características desejáveis em determinada espécie de produção assim como a importação de genética entre países é a transferência de embriões. Podemos dizer que a indústria de embriões é bastante relevante na reprodução de animais de produção e tem ganhado cada vez mais espaço. De acordo com o 28o relatório anual da Sociedade Internacional de Tecnologia de Embriões (International Embryo Technology Society – IETS), só no ano de 2018 mais de 1,5 milhão de embriões foram produzidos no mundo todo. Deste total, 96,69% foram produzidos na espécie bovina e o restante nas espécies equina, ovina e caprina (VIANA, 2019). Quando os embriões são fecundados no trato reprodutor da fêmea e coletados dizemos que são embriões produzidos in vivo. Quando a técnica de fertilização in vitro é utilizada para produção de embriões em ambiente laboratorial a partir da manipulação dos gametas, a origem de tais embriões é classificada como in vitro. A produção de embriões, in vivo ou in vitro, é aplicada para transferir embriões produzidos em ou a partir de uma fêmea de alto valor genético (doadora) para fêmeas chamadas receptoras que serão “barrigas de aluguel”, que muitas vezes apresentam menor valor zootécnico para o rebanho. Mais frequentemente os embriões são transferidos para fêmeas receptoras “a fresco”, ou seja, assim que atingem o estágio de desenvolvimento para a transferência. Quando a distância entre doadora e/ou laboratório de produção in vitro de embriões e as receptoras não permite a transferência a fresco ou mesmo quando há interesse em transferir os embriões em épocas mais propícias no futuro, a criopreservação de embriões pode ser utilizada para armazenamento dos mesmos por longos períodos em nitrogênio líquido. A criopreservação tanto de sêmen quanto de embriões permite o transporte e comercialização desses produtos entre localidades bastante distantes. Assim como observado em humanos, existem diversas doenças infecciosas que são transmitidas sexualmente em animais domésticos (animais de companhia e de produção) e silvestres. A clamidiose causada pela Chlamydia pecorum, por exemplo, tem sido responsável por

uma importante redução da população de coalas na Austrália. O mau do coito ou durina, uma doença transmitida sexualmente em equídeos, causada pelo protozoário Trypanosoma equiperdum, é responsável por surtos e mortes de animais na costa mediterrânea da África, Oriente Médio, Sudeste da África e América do Sul. Em espécies de produção a brucelose, que também pode ser transmitida sexualmente, tem importância epidemiológica e, em bovinos (Brucella abortus), cabras e ovelhas (Brucella melitensis) e suínos (Brucella suis) é uma doença de notificação obrigatória de acordo as recomendações da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE). Alguns agentes patogênicos como vírus, bactérias e protozoários podem ser transmitidos via sêmen, por exemplo. Assim, um controle rigoroso da sanidade dos reprodutores mantidos nas chamadas centrais de inseminação deve ser realizado. Todos os animais só podem ser incluídos no catálogo de reprodutores após verificação da ausência de uma série de patógenos. Diante disso, cada país deve seguir normativas específicas de acordo com o status sanitário de cada doença. Para doenças como a brucelose, a tuberculose bovina, a diarreia viral bovina a OIE estabelece regras internacionais para a coleta de sêmen de reprodutores para reduzir o contágio via reprodução assistida. O mesmo cuidado deve ser considerado na produção e manipulação de embriões. As fêmeas doadoras de embriões ou oócitos não devem apresentar sinais de doenças infectocontagiosas, sendo especialmente livres de brucelose, tuberculose, vírus da diarreia viral bovina e herpesvírus bovino tipo 1; e o manejo do rebanho ao qual pertencem deve atender às exigências sanitárias do país. Quando embriões são produzidos in vitro a partir de oócitos coletados de ovários de frigoríficos, temos o agravante da ausência de histórico das fêmeas doadoras de oócitos. Ainda para embriões produzidos in vitro, é estritamente proibido utilizar sêmen de reprodutores positivos para o vírus da diarreia viral bovina e herpesvírus bovino tipo 1, pois eles infectam o oócito e se mantém viáveis durante o protocolo de fertilização in vitro independentemente do processamento prévio do sêmen. Para comercialização internacional, a IETS recomenda que apenas embriões com zona pelúcida (camada glicoproteica que recobre o embrião nos primeiros dias de desenvolvimento embrionário) intacta, que não apresentem nenhum material aderido ao redor da zona pelúcida e submetidos a 10 lavagens com solução contendo tripsina sejam comercializados. Vale ressaltar que tal procedimento não remove contaminação por vírus da diarreia viral bovina e herpesvírus bovino do tipo 1. Tais cuidados na utilização de técnicas de reprodução assistida não valem apenas para animais, mas também para humanos. Em humanos, por exemplo, foi demonstrado que o vírus Zika também pode ser transmitido sexualmente e já foi descrito um caso de oócitos positivos para RNA do vírus em paciente de reprodução assistida (D’ORTENZIO et al., 2016). Assim, como comentado anteriormente, a manipulação de gametas e embriões deve seguir protocolos de segurança para que, mesmo na ausência do contato entre macho e fêmea, não ocorra a disseminação de doenças infectocontagiosas, principalmente entre países com diferentes níveis de controle de determinadas enfermidades (status sanitário).


Embrião bovino produzido pela biotécnica de fecundação in vitro, estágio de Blastocisto (7 dias após a fecundação). Arquivo pessoal da Dra. Flavia Barros (2021).

Referências: D’ORTENZIO, E. et al. Evidence of Sexual Transmission of Zika Virus. New England Journal of Medicine, v. 374, n. 22, p. 2195–2198, 2016. VIANA, J. 2018 Statistics of embryo production and transfer in domestic farm animals. Embryo Technology Newsletter-IETS, v. 36, n. 4, p. 1–26, 2019.

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