• Maria Júlia

"Quarto de despejo" -Carolina Maria de Jesus


QUARTO DE DESPEJO – CAROLINA MARIA DE JESUS

Maria Júlia das Graças



Resumo

Este artigo visa explorar na obra “Quarto de despejo, o diário de uma favelada” de Carolina Maria de Jesus, publicado em 1960, que retrata a realidade vivida pelos moradores da extinta favela do Canindé, observando seus aspectos quanto à literatura e subalternidade; identidade e escrita na literatura e o formato diário como forma de escrita.

De forma que a ideia da subalternidade, que mistura a vida pessoal à vida coletiva e profissional; e o descolamento da Carolina Maria de Jesus do lugar onde sobrevive, bem como, sua escrita como forma de refúgio e alento seja o cenário para essa análise.


Palavras-chave: favela; literatura periférica; diário; identidade; Carolina de Jesus.


Abstract

This article envision to explore the piece "Quarto de despejo, o diário de uma favelada” by Carolina Maria de Jesus, published in 1960, which portraits the reality lived by the dwellers of the extinct Canidé slum, observing their features as for the literature and

subalternity; identity and writing in literature and the journal format as writing tecnique.

In a way that the idea of subalternity rythm, which mixes the personal life to the colective and professional ones; and the displacement of Carolina Maria de Jesus from where she lives, as her writing as a way hide and breath be the background for this analisys.

Keywords: slum, dump, literature, periferical literature, journal, identity, Carolina de Jesus.

INTRODUÇÃO


Carolina Maria de Jesus nasceu em Sacramento, Minas Gerais em 14 de março de 1914, neta de escravos. Quando jovem recebeu apoio para frequentar a escola, onde Cursou os primeiro e segundo anos do primário. Veio para São Paulo com sua mãe para morar em Franca, onde trabalhou como lavadeira e empregada doméstica.

Em 1948 mudou-se para a Favela do Canindé. Em dado momento de sua vida, passou a catar papel para sobreviver. Lendo tudo o que recolhia e guardando revistas para si, foi chamada de “A poetisa negra”. Em 1958 o jornalista Adálio Dantas da Folha de São Paulo quando fora designado para uma reportagem sobre a favela do Canindé e uma das casas que ele visitou foi a de Carolina. Ela mostrou ao repórter o seu diário e depois tornou-se o importante livro “Quarto de despejo”, publicado em 1960.

Adálio Dantas não fez modificações drásticas no texto, apenas consertou algumas pontuações e retirou palavras de baixo calão para que o conteúdo exprimisse o máximo da realidade comum daquela parte da sociedade chamada por Carolina de Quarto de despejo de São Paulo.

LITERATURA E SUBALTERNIDADE


A história nos conta que desde o início das favelas os negros portavam apenas a liberdade e nada mais, com a falta de emprego e moradia, começaram a levantar barracos em locais marginalizados, e aceitavam qualquer trabalho como àqueles que já exerciam quando escravos.

Por diversas vezes Carolina Maria de Jesus faz analogias para explicar como vê e como entende a favela como o próprio nome do livro de seu diário. O quarto de despejo, nessa concepção seria o local onde se joga, se despeja aquilo que não se quer mais, ou como ela mesma escreveu: “...Havia pessoas que nos visitava e dizia:

- Credo, para viver num lugar assim só os porcos. Isso aqui é o chiqueiro de São Paulo.” (Jesus, 1960).

Viver na favela é uma sentença de subalternidade, já que excluso das possibilidades sociais que produzem divisão, diferenças e marginalização, é impossível haver um mecanismo de emancipação da periferia.

Conforme SANTOS e BORGES (2013, P. 3)

Para Carolina de Jesus a favela não é parte da cidade, mas sim uma úlcera na mesma. Por mais que o cenário e as perspectivas com relação às favelas mudem, elas ainda seguem em sua condição de degradação do sujeito. A construção de uma identidade num território dado se forma na experiência do espaço habitado e desenvolve, assim, com ele, um elo emocional. Desta forma, a percepção do tempo e do espaço afeta a sensação do lugar. Carolina rejeitava qualquer elo emocional com o Canindé; qualquer traço que a identificasse com aquele lugar.




IDENTIDADE E ESCRITA NA LITERATURA

Carolina Maria de Jesus experimentou a crueldade da vida, visto que de catadora de papel, transformou-se em uma escritora de renome. Sendo lida pela elite brasileira, sendo convidada de eventos sociais, e criando para si uma identidade única e deixando para trás a identidade coletiva que trazia consigo a ideia de favela.

Já no final de sua vida, voltou a catar papel para sobreviver, mas não estava mais na favela, vivia em um sítio no bairro de Parelheiros com os filhos, onde fora esquecida pelo mercado editorial, lugar em que faleceu no ano de 1977.

Quando, ainda invisível e coletiva, passava fome junto com seus filhos, o diário escrito por ela experimentava o amargo da fome:

27 de Maio ... Percebi que no frigorífico jogam creolina no lixo, para o favelado não catar a carne para comer. Não tomei café, ia andando meio tonta. A tontura da fome é pior que a tontura do álcool. A tontura do alcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estomago. Comecei a sentir a boca amarga. Pensei: já não basta as amarguras da vida? (JESUS, 1960, p. 39).

O uso do pronome “nós”, nessa referência de sua escrita nos mostra a identidade coletiva do favelado, porque na favela, todos estão em estado de miséria e fome.

Para tanto, a invisibilidade de Carolina Maria de Jesus foi rompida pelo diário que escreveu, dando a ela um sentindo para a existência, para seu nome e identidade como afirma (FERREIRA, 2019, P.12):

Nesse tipo de relação, os sujeitos passam a se constituir a si mesmos enquanto sujeitos e são subjetivados de diferentes modos. Entende-se, nessa perspectiva, modo de subjetivação como todos os processos e as práticas heterogêneas por meio dos quais os seres humanos vêm a se relacionar consigo mesmos e com os outros como sujeitos de certo tipo. Mediante a época e o tipo de construção social, esses processos são sempre situados e amplamente diversos em seus modos de existência que produzem.



O FORMATO DIÁRIO COMO FORMA DE ESCRITA

Um gênero discursivo é caracterizado pelas perguntas: “do quê”, “por quê” e “para quem”. O diário é escrito por você com a intenção de registrar acontecimentos e sentimentos. É nele que depositamos nossas ideias e ideais, opiniões sobre diversos temas e materializamos o que em nossa cabeça ainda não é real.

Na maioria das vezes é escrito em primeira pessoa do singular, sob apenas um ponto de vista, àquele de quem escreve, não segue a norma culta da língua, apresentando então, coloquialidades, e como no caso do livro “Quarto de despejo, o diário de uma favelada”, é um importante documento histórico político – social e cultural de uma época.

O formato diário como forma de escrita é uma linguagem sócio-política já que é a nossa própria voz que informa, denuncia, resgata e expressa conceitos.

Para FERREIRA (2019 p.6):

O estudo dos diários permite novos olhares sobre a obra de Carolina de Jesus, além de inserir outras problematizações que podem extrapolar ideias a respeito de que a literatura é um espaço político, como direito de humanização, onde se permitem múltiplas manifestações e, por meio dela, possibilitam-se oportunidades para a identificação de uma realização ontológica.


A autora denuncia toda a violência e exploração humana da época, lembrando a subalternidade a que fora imposto aos ex-escravos, como se não houvesse para eles e seus descendentes, lugar no mundo. Não é como se eles tivessem escolhido viver marginalizados, mas não encontrando abrigo nas áreas centrais, eles foram jogados o mais longe e escondido possível sobrando apenas a meta de sobreviver no que Carolina chama de inferno, palco da miséria, cortiço, úlcera, gabinete do diabo, chiqueiro de São Paulo, barraco, quarto de despejo de São Paulo. Audálio Dantas, repórter que a descobriu, diz que ela era extremamente descritiva e detalhista que também são características do gênero literário Diário.

Eram mais ou menos 20 cadernos e o jornalista cortou algumas redundâncias e partes que não acrescentariam à obra, mas pouco mexeu, preservando as marcas de oralidade – variações próprias da língua oral popular. Como no trecho:

... As vezes mudam algumas familias para a favela, com crianças. No inicio são iducadas, amaveis. Dias depois usam o calão, são soezes e repugnantes. São diamantes que transformam em chumbo. Transformam-se em objetos que estavam na sala de visita e foram para o quarto de despejo. (JESUS, 1960, P. 34)



Considerações Finais


A obra “Quarto de despejo, diário de uma favelada” foi escrito por uma das primeiras e mais importantes escritoras negras do Brasil também chamada de “Cinderela Negra”, escrevia, além dos diários, poemas e contos. Depois do sucesso de Quarto de despejo, ela ainda escreveu outras obras e publicou por sua conta.

Embora, pouco letrada, em 1960 no Estado de São Paulo, seu livro estava em primeiro lugar em vendas, na frente, inclusive, de Jorge Amado. Mas assim como é na maioria das vezes, para um marginalizado, negro e pobre, morreu na miséria tendo que voltar a catar papel para sobreviver.

Sua obra escrita em meados do século XX, ainda hoje serve como base para inúmeras discussões sobre racismo, favelas, assistência social, feminismo, entre outros assuntos que se transformaram em inúmeros trabalhos acadêmicos e obra de reflexão social, político e cultural. Carolina Maria de Jesus deixou mais do que diários e livros, deixou um legado inestimável para a história social do pais.


Referências Bibliográficas

JESUS, Carolina Maria. Quarto de despejo Diário de uma favelada.6.ed São Paulo: Francisco Alves, 1960.

Webgrafia:

ALMEIDA, Júlia Maria Costa. Dossiê “Favela”. Figurações Barthesianas de Carolina Maria de Jesus In: ABRALIC. ANAIS, 2020. Disponível em: https://abralic.org.br/anais-artigos/?id=1412. Acesso em 10 dez. 2020.

DUARTE, Vânia Maria do Nascimento. Diário: um gênero discursivo. Disponível em: https://www.portugues.com.br/redacao/diario-um-genero-discursivo.html. Acesso em: 11 dez. 2020.

.FERREIRA, Naiva Batista Quarto de despejo: gênero e autobiografia na literatura de Carolina Maria de Jesus. Disponível em: https://tede.ufam.edu.br/bitstream/tede/7408/5/Disserta%C3%A7%C3%A3o_NaivaFerreira_PPGL.pdf Acesso em 10 de dez de 2020.

FRAZÃO, Dilva. Biografia de Maria Carolina de Jesus In.: E biografias. Disponível em: https://www.ebiografia.com/carolina_maria_de_jesus/ Acesso em 10 de dez de 2020.

SANTOS, Lara Gabriella Alves dos; BORGES, Valdeci Rezende. Quarto de despejo: O espaço na obra de Carolina Maria de Jesus.In.: Anais do SILEL, volume 3 n.1. Disponível em: http://www.ileel.ufu.br/anaisdosilel/wp-content/uploads/2014/04/silel2013_1545.pdf Acesso em 10 de dez. de 2020


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