• Margareth Anjos

ORALIDADE – HERANÇA E RESISTÊNCIA

Meu cântico fez do Atlântico um detalhe quântico Busque-me nos temporais (vozes ancestrais)

um se mede coragem em tempo de paz”.

Eminência Parda - Emicida.


A tradição oral, como herança da cultura tradicional africana, não representa apenas riqueza em perspectivas históricas, mas também um canal para o conhecimento cultural de uma sociedade. A importância da oralidade não representa a negação da escrita, mas reafirma a independência através de uma peculiaridade de um povo. Por intermédio da voz, associada ao corpo, se expressa a memória, a comunicação, a identificação. Cabe a essa oralidade a preservação de práticas e saberes oriundos da cultura africana, em terras brasileiras.


A boca é um órgão muito especial, ela simboliza a fala e a enunciação. No âmbito do racismo a boca torna-se o órgão da opressão por excelência, ela representa o órgão que os(as) brancos(as) querem – e precisam – controlar e, consequentemente o órgão que, historicamente, tem sido severamente repreendido.(KILOMBA, Grada, 2015, p. 172)


A linguagem é também uma ferramenta para a preservação do poder. Sendo assim, o seu cerceamento representa uma violenta forma de coibir a afirmação, seja ela cultural ou social. Aos escravizados vindos da África para o Brasil a língua de origem foi proibida. Por uma resistência deles, o que fortalece a importância da oralidade, palavras dos idiomas ora proibidos influenciaram muito o português falado no Brasil. O texto da justificativa do Projeto de Lei que fundamentou o documento para que o Iorubá, língua de origem africana, fosse declarado Patrimônio Imaterial do Estado do Rio de Janeiro anuncia a importância desta influência:


Por ser uma cultura calcada na oralidade, muito se perdeu na diáspora, quando os africanos aqui chegaram como escravos, sem dominar nosso idioma e sem que pudessem livremente professar sua fé. Sem registros documentais, foi grande o prejuízo à manutenção das tradições e das bases litúrgicas de origem africana.(...)Seus idiomas de origem, embora oficialmente proibidos, eram mantidos secretamente entre os escravos, ganhando contornos de resistência identitária, no cotidiano e de heroísmo, nos quilombos, calundus e terreiros de Candomblé e Umbanda. (NUNES, Projeto de Lei 3416/2017)


Na esfera opressora e exploratória de um povo em relação a outro, a boca representa o órgão alvo da opressão. Órgão este, que possibilitava denunciar e ainda explicitar narrativas apavorantes sobre o período da colonização. Desta forma, a boca precisou ser severamente calada. Mecanismos para favorecer o silenciamento dos negros, principalmente no período colonial, no Brasil, são vastos. Nesse propósito de sociedade que foram criadas as identidades no colonialismo. Legitimando uns e deslegitimando outros. Seguindo em uma construção desigual de poder, de existência, privilegiando uns em detrimento de outros.


A máscara, portanto, levanta muitas questões: por que deve a boca do sujeito Negro ser amarrada? Por que ela ou ele tem que ficar calado(a)? O que poderia o sujeito Negro dizer se ela ou ele não tivesse sua boca selada? E o que o sujeito branco teria que ouvir? Existe um medo apreensivo de que, se o(a) colonizado(a) falar, o(a) colonizador(a) terá que ouvir e seria forçado(a) a entrar em uma confrontação desconfortável com as verdades do ‘Outro’. Verdades que têm sido negadas, reprimidas e mantidas guardadas, como segredos. Eu realmente gosto desta frase “quieto como é mantido”. Esta é uma expressão oriunda da diáspora africana que anuncia o momento em que alguém está prestes a revelar o que se presume ser um segredo. Segredos como a escravidão. Segredos como o colonialismo. Segredos como o racismo. (KILOMBA, Grada, 2015, p. 177)


Desta maneira, a minha existência é anulada a partir do momento que é negada a minha possibilidade de fala. Se determina, através de uma violenta hierarquização, quem tem voz. Manuel Rui (2016) nos retrata em “Eu e o outro – o invasor” que


Quando chegaste mais velhos contavam estórias. Tudo estava no seu lugar. A água. O som. A luz. Na nossa harmonia. O texto oral. E só era texto não apenas pela fala, mas porque havia árvores (...). E era texto porque havia gesto. Texto porque havia dança. Texto porque havia ritual. Texto falado ouvido visto. É certo que podias ter pedido para ouvir e ver as estórias que os mais velhos contavam quando chegaste! Mas não! Preferiste disparar os canhões.


À população negra foi negada ser protagonista da construção do saber, principalmente o científico. Seu destino estava limitado à subalternidade e a similaridade com o objeto ou a animalização.

Muitos povos do continente africano passaram a ser classificados como “sem história”, já que esta não constava registrada em documentos escritos. Mas, a ausência destas escrituras não denota a não existência de um passado, de um conhecimento, de cultura. A escrita representa um elemento técnico, já a palavra está diretamente ligada ao acontecimento.

A diáspora africana trouxe para o Brasil a tradição oral africana e esta pode ser classificada como um elo de ligação com a nossa ancestralidade. Foi incorporada às nossas tradições, através dos escravizados, as incorporando à cultura negra. A investigação sobre a oralidade nos faz conhecer a história dos nossos ancestrais e assim compreender a influência desta presença. A tradição oral fomenta um encantamento aos que se interessam por ela, já que é capaz de revelar um mundo através da fala.


A oralidade presente na tradição oral nos apresenta a configuração social de sua sociedade, permite que reconheçamos através dos traços dessa cultura tanto os caminhos percorridos, como também perceber os desafios para que haja a consolidação de seus costumes, ritos etc (OLIVEIRA, 2019, p. 20)


A marca da oralidade está nas histórias contadas pelos mais velhos, nas letras dos sambas antigos, nos pontos de Jongo. Nessas vozes são narradas lendas, costumes, fatos do cotidiano. Maneiras de falar são preservadas e nos revelam uma herança através do som que não exclui o uso popular e coloquial da linguagem. Para Lélia Gonzalez, o português falado no Brasil, deveria ser classificado como “pretoguês”, de acordo com suas raízes.

(…) aquilo que chamo de ‘pretoguês’ e que nada mais é do que marca de africanização no português falado no Brasil (…). O caráter tonal e rítmico das línguas africanas trazidas para o Novo Mundo, além da ausência de certas consoantes, como o l ou o r, por exemplo), apontam para um aspecto pouco explorado da influência negra na formação históricocultural do continente como um todo” (GONZALEZ, 1988, p.70)


As histórias contadas pelos mais velhos representam a transmissão de conhecimentos que foram vivenciados durante sua trajetória. Essa narrativa agrega valor místico à transferência do saber. A sabedoria emerge deste legado ancestral.


Uma sociedade oral reconhece a fala não apenas como um meio de comunicação diária, mas também como um meio de preservação de sabedoria dos ancestrais, venerada no que poderíamos chamar elocuçõeschave, isto é a tradição oral. A tradição, pode ser definida, de fato, como um testemunho transmitido verbalmente de uma geração para a outra. (VANSINA, 2010, p.157)


A fala, nas sociedades que valorizam a oralidade, não significa uma mera intermediadora de uma comunicação cotidiana, mas um elemento importante na preservação da sabedoria da ancestralidade. Posto isto, a “palavra falada” apresenta uma “origem divina, nela se reconhece[ndo] um poder sagrado criador, capaz de preservar e destruir.” (RIBEIRO,1996, p.97). A palavra quando proferida transforma e se estabelece como guia para a consolidação da existência de uma sociedade. A oralidade, fortalecida nas comunidades negras em diáspora,concedem um vasto campo de reflexão para repensarmos as formas de comunicação, e ainda de relações sociais, econômicas, políticas, culturais e educacionais.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


CUNHA JR., Henrique. NTU. Revista Espaço Acadêmico, nº. 108 – Maio de 2010.

KILOMBA, G. A máscara. Tradução: Jesus, J. O. Cadernos de Literatura em Tradução, n. 16, p. 171-180, 2015.

GONZALEZ, Lélia. Primavera para as rosas negras. Lélia Gonzalez em primeira pessoa... São Paulo: UCPA; Diáspora africana, 2018.

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NUNES, Susana Dolores Machado. A milenar arte da oratura angolana e moçambicana: aspectos estruturais e receptividade dos alunos portugueses ao conto africano. Porto: Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, 2009. E-book; CEAUP Edições eletrônicas. Disponível em: . Acesso em 01 set. 2016.

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OLIVEIRA, Kiusam Regina de. O papel da consciência sóciorracial na luta contra o racismo. In.: SOUSA, Cynthia Pereira de. CATANI, Denice Bárbara (orgs.). Multiplicidades culturais, projetos de formação e trabalho escolar. São Paulo: Escrituras Editora, 2007.

OLIVEIRA, Eduardo. Filosofia da ancestralidade: corpo e mito na filosofia da educação brasileira. Curitiba: Editora Gráfica Popular, 2007.

RIBEIRO, RonildaIyakemi. Alma Africana no Brasil. São Paulo: Oduduwa. 1996.

RUI, apud NUNES, A milenar arte da oratura angolana e moçambicana: aspectos estruturais e receptividade dos alunos portugueses ao conto africano, 2016, p. 41.

SILVA, Gloria Cecília de Souza e. Os “Fios de Contos” de Mãe Beata de Yemonjá: mitologia afro-brasileira e educação. 2008. 137 p. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008. Disponível em: http://www.proped.pro.br/teses/teses_pdf/2006_1-190-ME.pdf. Acesso em: 02 de janeiro de 2021.

VANSINA, Jan. A tradição oral e sua metodologia. In: ZERBO, Joseph K. (org). História Geral da África I: Metodologia e pré-história da África. Brasília: UNESCO, 2010.

OLIVEIRA, Julvan Moreira de e FARIAS, Kelly de Lima.Só quem sabe onde é Luanda saberá lhe dar valor: a tradição oral como herança ancestral. Voluntas: Revista Internacional de Filosofia, Santa Maria, v.10, 2019, p. 43 – 64.

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