• Alef G. C.

O Negro na Universidade

A análise da história da inserção dos negros nos espaços educacionais no Brasil demonstra a exclusão sistemática desse grupo, contudo há também o registro das lutas travadas. Dados apresentados por Gonçalves e colaboradores (2019) demonstram que à medida que ocorre o aumento do nível de formação nota-se a diminuição do número de pessoas negras a integrar aquele grupo. A universidade como grande marco da produção de conhecimento e formação profissional torna-se um ambiente de disputa de toda a população, contudo, para um estudante negro favelado, o desafio está para além de ingressar, mas também há a luta constante para permanecer. Para além das condições objetivas de permanência, como moradia, transporte e alimentação, há também a necessidade de pertencimento ao grupo universitário.






Texto de Juliana Márcia


Mulher negra da periferia de Salvador. Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal da Bahia (2017), Mestra em Estudos Interdisciplinares Sobre Mulheres, Gênero e Feminismos pela Universidade Federal da Bahia (2020) e Doutoranda em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Membro do Laboratório de Tecnologias Sócio-Raciais e Metodologias em Redes (LATER). Membro do Corpo Editorial da Revista Feminismos. Pesquisa principalmente sobre Mães negras na universidade, redes de assistência, assistência estudantil, maternidade e carreira, gênero nas ciências e mulheres negras nas ciências.

O termo outsider within* usado pela feminista negra Patricia Hill Collins (2016) nos apresenta os desafios vividos pelas “forasteiras de dentro” ou “estrangeiras de dentro” na sociologia, termos que me remetem a condição do estudante negro favelado na universidade, pois ao ingressar nesse ambiente o mesmo que foi historicamente um outsider é demandado a “adequar-se” ou esforçar-se para se tornar um insider de um grupo que historicamente constrói e reproduz a sua subalternidade e exclusão.


Tal exclusão pode vir a partir do assédio de colegas e professores que tentam pressioná-lo a essa “adequação” ao ambiente para que assuma a identidade esperada de universitário em todos os aspectos que incluem sua fala, comportamento e vestimenta, aniquilando qualquer sinal de sua origem na favela. Observo que tal adequação coloca o mesmo dilema enfrentado pelos martinicanos que visitam a França, mencionados por Frantz Fanon em Pele negra, máscaras brancas (2008), pois somos forçados a abandonar elementos de nossa cultura considerada inferior ou inadequada em nome de uma cultura e linguagem considerada “melhor”, a cultura branca da tradição acadêmica.


Termos como “mano”, “tá ligado?”, “suave” e “de boa” são recebidos com espanto na tentativa de que deem espaço para os jargões acadêmicos. As bermudas dão lugar a calça jeans, as camisas de time dão lugar às camisas polo e tudo vai entrando no preto e branco da academia.


Ressalto que há uma importante contradição sobre a universidade e a favela, pois na mesma medida que o ambiente universitário tenta conformar o favelado em seus moldes aniquilando sua cultura, ainda permanece escrevendo dissertações, teses, lançando artigos e formando grupos de pesquisa sobre a cultura da favela e os favelados. Ou seja, pesquisam sobre a favela, mas tentam “desfavelizar” seu ambiente.


Recentemente páginas das redes sociais como a “funkeiros cults” agitam um debate sobre os estrangeiros da universidade. A tradução do conteúdo acadêmico para uma linguagem popular e acessível cumpre a função de divulgação científica e leva o conhecimento para onde a universidade não chega. Além disso tais páginas buscam divulgar os funkeiros intelectuais desconstruindo a imagem do homem branco, velho, barbudo, fumando um charuto e falando outras línguas que temos como uma figura de intelectual, trazendo a figura de favelados e faveladas, de óculos Juliet e portando livros das diversas áreas de conhecimento.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008. GONÇALVES, L. A. O. ; COUTINHO, F. A., PEREIRA JUNIOR, E. A; PEREIRA, J. Acesso de negras e negros à pós-graduação. Revista ABPN, Goiânia, v. 11, s/n, p. 176-206, 2019. HILL COLLINS, Patricia. Aprendendo com a outsider within*: a significação sociológica do pensamento feminista negro. Revista Sociedade e Estado, Brasília-DF, v.31, n.1, jan./abr. 2016


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