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O mundo dos órgãos artificiais

Desde que o médico pesquisador Robert Jarvik, e o inventor Willem Kolff conseguiram, em 1982, transplantar, pela primeira vez com sucesso, um coração artificial em pleno funcionamento em um ser humano o mundo dos transplantes de órgãos nunca mais foi o mesmo. O Jarvik-7, nome dado a esse coração projetado em laboratório, foi o primeiro grande avanço no desenvolvimento de órgãos artificiais e trouxe muita expectativa consigo. E não era pra menos. A falência de órgãos é uma das principais causas de mortalidade na população mundial e, adicionalmente, em grande parte do mundo, o número de pacientes esperando por um novo órgão vem aumentando ano após ano. Apesar dos esforços e avanços notáveis na área dos transplantes, fica claro que as necessidades não estão sendo amplamente atendidas.


Os obstáculos não são tão simples de serem ultrapassados: o rápido envelhecimento e o aumento na expectativa de vida da população, o crescimento na incidência de doenças que levam a falência de órgãos e a escassez de doadores são apontados como os principais motivos para esse aumento na demanda de transplantes. É nesse contexto que os órgãos artificiais aparecem como uma potencial alternativa de tratamento.


Para entender melhor, define-se um órgão artificial por um dispositivo feito pelo homem, comumente em um laboratório, com a capacidade de substituir um órgão original do corpo humano e desempenhar a mesma função específica do órgão substituído. Assim, essa tecnologia pode diminuir significantemente o número de pacientes nas listas de espera, salvando milhares de vidas anualmente. É por isso que o mercado global de órgãos artificiais aumenta consideravelmente todo ano e estima-se que deve chegar a valer 37,7 bilhões de dólares até 2030.


Embora as tentativas de imitar o funcionamento de órgãos em laboratórios estão cada vez mais perto, com alguns já sendo obtidos com algum sucesso (ex. pele, bexiga, traqueia), a fabricação integral de órgãos complexos funcionais, tais como fígado, cérebro e pulmão, parece uma realidade ainda um pouco distante. Devido à enorme complexidade, os pesquisadores dessa área, conhecida como engenharia de tecidos (tissue engineering), tem focado seus esforços muito mais no desenvolvimento de estratégias que buscam a regeneração de partes de tecidos corporais do que na completa substituição de um órgão.


De fato, o caminho à frente para a utilização expressiva de órgãos artificiais é longo e desafiador. Existem barreiras na forma de questões éticas, alto custo dos dispositivos, falta de requisitos regulamentares, e questões de segurança, principalmente devido à falta de dados clínicos de longo prazo. Ainda assim, dado os avanços tecnológicos nessa área nos últimos anos (ex.: impressão tridimensional, nanotecnologia, etc.) parece ser questão de tempo para o que hoje é visto mais como uma ficção científica se torne realidade. Acredita-se que dentro de algumas décadas o implante de órgãos artificiais possa ser usado efetivamente no tratamento de doenças, o que promete causar um profundo impacto nos serviços de saúde.


Thiago D. Stocco

Docente na Universidade Santo Amaro e Pesquisador doutorando na Unicamp, recebeu seu título de Mestre em Engenharia Biomédica pela Universidade do Vale do Paraíba trabalhando com engenharia de tecidos no laboratório de nanotecnologia biomédica. Atualmente sua pesquisa tem focado na biofabricação de órgãos e tecidos artificiais para medicina regenerativa. É autor de livro e artigos, bem como revisor de periódicos internacionais ligados à área de saúde e tecnologia.

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