• Maria Luiza Valeriano

O exemplo silencioso das plantas

Um olhar atento ao nosso redor pode nos mostrar o belo e silencioso exemplo de enfrentamento de crises que vem das plantas, ressalta o pesquisador

Emiliano Lobo de Godoi*


Crises acontecem e sempre aconteceram. Não são uma exclusividade da raça humana. Tempos difíceis se repetem ao longo de toda a história do planeta e afetam as mais diversas espécies animais, vegetais, o ar, a água e o solo. A adversidade faz parte da vida e age como combustível da transformação. Portanto, devemos esperá-la de maneira natural e nos preparamos para sua chegada. Assim, a questão não é tratar da crise em si, mas, da maneira como reagimos frente a uma dificuldade ou um momento adverso. É isso que faz toda a diferença.

Um olhar atento ao nosso redor pode nos mostrar o belo e silencioso exemplo de enfrentamento de crises que vem das plantas que respondem com flores e frutos quando todas as condições ambientais em seu entorno se mostram inadequadas. É na época da dificuldade, da falta de água, da baixa umidade do ar, das queimadas, que o jacarandá-mimoso nos presenteia com seus cachos densos e azulados, que o ipê floresce com todo seu vigor e o resedá se veste com sua roupa de gala.

Esses exemplos deveriam nos servir de alerta para apreendermos que em época de crise é necessário planejamento, força e resiliência para superar as adversidades. Deveriam nos lembrar que crises são cíclicas e de que não adianta apenas lamentar, e sim, que devemos enfrentá-la com o que temos de melhor. Devemos aprofundar nossas raízes em nossa história e em nosso conhecimento para que tenhamos sabedoria e discernimento para sabermos a maneira adequada de esperar e de lutar frente a uma dificuldade.

Todos os anos, por falta de planejamento, parece que somos surpreendidos pela estação seca que provoca crises hídricas no campo e nas cidades. E nessas crises continuamos com a prática de lavar nossas calçadas e a irrigar nossos jardins com água tratada e nos horários mais impróprios possíveis. As queimadas atingem grande áreas, ainda preservadas e de rica biodiversidade, por falta de responsabilidade de indivíduos que colocam fogo em suas propriedades e pensam em seu interesse acima do bem coletivo.

Todos os anos as estações chuvosas surgem como se não fossem previsíveis, trazendo enchentes que nos apavoram, como se isso nunca tivesse ocorrido antes. Impermeabilizamos todo nosso solo, de nossas ruas e de nossas casas, e lamentamos por morar em uma cidade passível de inundações. Lançamos lixo e esgoto em nossas redes de água pluvial e não relacionamos isso a grandes danos em nossas vias públicas. Populações ribeirinhas, por exclusão social e falta de políticas públicas, perdem todos os seus pertences e, em muitos casos, suas próprias vidas. Desmatamos as áreas de preservação permanente e não compreendemos porque a cada ano nossos rios são cada vez mais rasos e turvos.

Devemos assim, observar e apreender com o exemplo silencioso das plantas que enfrentam as dificuldades aprofundando suas raízes durante as estações de chuva para terem água nas estações de seca. Que desenvolvem cascas grossas para se protegerem de possíveis queimadas. E que, quando tudo parece que vai terminar, produzem flores e frutos para perpetuarem suas espécies.


*Emiliano Lobo de Godoi é professor da Escola de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade Federal de Goiás


Fonte: Secom UFG

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