• Gabriella Arienne

O DILEMA DO ÁLCOOL GEL 70% PARA DESINFECÇÃO DAS MÃOS

Estamos vivenciando (novamente) uma pandemia. E assim como aconteceu em outras situações reaparecem algumas dúvidas e más informações acerca de métodos de higienização, tal como a forma mais eficiente de higienizar as mãos. Algumas dúvidas frequentes que tenho visto em redes sociais são acerca: (i) do teor alcoólico dos produtos à base de álcool etílico (etanol ou popularmente chamado de álcool) comercializados para ser eficiente quanto a desinfecção das mãos; (ii) do uso de outros tipos de álcool levando em consideração a não disponibilidade do álcool gel 70% em supermercados e farmácias; (iii) se outros produtos são tão eficientes quanto o álcool gel 70%.


Vamos refletir a cada um dos pontos indicados acima. Vamos iniciar com a dúvida acerca do teor alcoólico dos produtos à base de álcool etílico (etanol ou popularmente chamado de álcool) comercializados para ser eficiente quanto a desinfecção das mãos.


Em primeiro lugar devemos refletir acerca desse “percentual mágico”, 70% de álcool etílico, que tem se falado tanto. Talvez a resposta para esse percentual mágico esteja no artigo Ethyl alcohol as a germicide [Álcool etílico como um germicida] escrito por Philip B. Price em 1939. Nesse artigo, o autor apresenta um importante resgate histórico do álcool etílico, que segundo ele “é provavelmente o mais popular de todos os desinfetantes cutâneos”.


Segundo o resgate histórico de Price, em 1881 foi publicado um estudo acerca de desinfetantes, indicando que o álcool diluído possui propriedade bactericida relativamente fraca e que o álcool absoluto é tão indiferente "como água estéril" contra esporos de antraz.


Alguns anos depois, em 1896, um pesquisador concluiu que é necessário que microrganismos estejam úmidos para que o álcool seja mais eficaz e que a pele e as mucosas sejam desinfetadas por um "fluxo de difusão" de água e álcool.


Epstein, em 1897, usando vários tipos de microrganismos secos em pedaços de fio de seda, descobriu que das soluções testadas (25, 40, 50, 80, 95 e 99% de álcool etílico) a mais germicida era a solução de 50%, capaz de matar as bactérias em cinco a dez minutos.


Harrington, em 1903, demonstrou de forma convincente que os microrganismos são mais suscetíveis ao álcool etílico quando úmidos do que quando secos. Ele concluiu que a faixa de concentração de álcool etílico mais eficaz contra os germes vegetativos comuns (quando secos) é de 60 a 70%, matando-os em cinco minutos ou menos à temperatura ambiente.


Beyer, em 1911, apontou a importante diferença entre concentrações em volume e concentrações em peso e mostrou a superioridade de uma solução de álcool exatamente 70% em peso. Ele afirmou que uma solução de 70% é trinta vezes mais poderosa que uma solução de 60% e quarenta vezes mais poderosa que uma solução de 80% e que soluções inferiores a 50% ou acima de 80% (em peso) não são práticas para desinfecção.


A partir desse recorte de trabalhos apresentados por Price poderíamos concluir que a concentração ideal de álcool etílico para fins de desinfecção deveria ser 70%. No entanto, Price alerta para erros nos métodos utilizados para avaliar as propriedades bactericidas efetuadas pelos pesquisadores mencionados.

Price relata acerca de um estudo da atividade desinfetante de soluções de álcool etílico (em diferentes concentrações) frente a três bactérias (Bacillus coli, Staphylococcus Aureus e Staphylococcus albus). Os resultados observados estão indicados na tabela abaixo.


As conclusões resultantes desse estudo são:


1. O álcool etílico em concentrações adequadas é um poderoso germicida quando em contato com esses organismos em suspensão;

2. O álcool destrói bactérias (vegetativas) em suspensão aquosa a uma taxa constantemente decrescente;

3. Das soluções testadas, a solução de 70% (em peso) é a bactericida mais rapidamente. (No entanto, vale ressaltar que mesmo álcool a 1% mata essas bactérias de teste lentamente).

4. A suscetibilidade ao álcool varia de acordo com os diferentes tipos de bactérias.

A solução de 70% parece ser tóxica para a Staphylococcus Aureusem particular. Price chama a atenção para o fato de que Beyer e outros usavam apenas Staphylococcus Aureus como organismo teste.

Price concluiu que, contra bactérias em suspensão, o álcool etílico 70% (em peso) age ainda mais forte e rapidamente e que as concentrações mais altas e mais baixas são menos eficazes.

Do uso de outros tipos de álcool levando em consideração a não disponibilidade do álcool gel 70% em supermercados e farmácias.

Existem vários estudos acerca do efeito de diferentes concentrações de álcool etílico frente a microrganismos vivos. Smith (1947), por exemplo, ao estudar o álcool etílico como um desinfetante contra o bacilo que causa a tuberculose, concluiu que:


1. O álcool é um desinfetante eficaz contra bacilos tuberculosos;

2. Bacilos tuberculosos em suspensão de água ou escarro foram mortos em períodos de exposição de 15 a 30 segundos por álcool etílico absoluto, 95 e até 70%;

3. Bacilos tuberculosos em esfregaços secos de escarro ou suspensões de água eram geralmente eliminados por álcool etílico (50 e 70%) ou álcool isopropílico (30 a 80%) quando expostos por 1 a 2 minutos, às vezes em 15 a 30 segundos;

4. Em um esfregaço de escarro muito espesso, os bacilos sobreviveram à ação de álcool 70% em 5 minutos, mas não à exposição por 10 minutos;

5. A ação antisséptica do álcool não foi reduzida pela presença de escarro, exceto onde os esfregaços eram muito espessos;

6. Álcool 95% é melhor para superfícies molhadas; 50% para superfícies secas; e 70% para superfícies úmidas ou secas.


Segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), agência do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, “[…] a atividade antimicrobiana dos álcoois pode ser atribuída à sua capacidade de desnaturar proteínas”. De acordo com diretrizes sobre higiene das mãos nos cuidados de saúde produzida por esta agência, “[…] soluções de álcool contendo 60% a 95% de álcool são mais eficazes e concentrações mais altas são menos potentes porque as proteínas não são desnaturadas facilmente na ausência de água”.

A partir de estudos publicados na literatura, a agência CDC informa que certos vírus envelopados (lipofílicos) são suscetíveis a álcoois quando testado in vitro. O vírus da hepatite B é um vírus envelopado que é um pouco menos suscetível, mas é morto por álcool etílico na concentração de 60 a 70%; o vírus da hepatite C também é provavelmente morto por essa porcentagem de álcool.


Em um estudo realizado em 2012, com três tipos de produtos comerciais (álcool em gel, em espuma e toalhetes) contendo de 62 a 65,9% de álcool etílico em sua composição, contra o vírus influenza A (H1N1), concluiu-se que o uso dos mesmos produziu contagens virais significativamente reduzidas nas mãos (LARSON; COHEN; BAXTER, 2012).

Kampf (2018) publicou um artigo acerca da eficácia do etanol contra vírus na desinfecção das mãos. O objetivo dessa revisão foi descrever o espectro da atividade virucida do etanol em solução ou como produtos disponíveis comercialmente. Segundo ele o etanol 80% foi altamente eficaz contra todos 21 vírus envelopados testados quando expostos a 30 segundos. O norovírus murino e o adenovírus tipo 5 geralmente são inativados pelo etanol entre 70% e 90% quando expostos a 30 segundos, enquanto o poliovírus tipo 1 foi muito resistente, exceto quando avaliado com etanol 95%. É improvável que o etanol 80% seja suficientemente eficaz contra o poliovírus, o calicivírus, o poliomavírus, o vírus da hepatite A e o vírus da febre aftosa. O espectro da atividade virucida do etanol a 95%, no entanto, cobre a maioria dos vírus clinicamente relevantes.


Kampf relatou um estudo no qual o etanol, a partir de uma concentração de 42,6%, é eficaz contra dois tipos de coronavírus, vírus Ebola, influenza A, entre outros.

Em outro estudo publicado recentemente, Boyce (2018) informou que o álcool etílico inibiu a síntese de proteínas em Escherichia colipor efeitos diretos nos ribossomos e na RNA polimerase e que soluções de 60% a 70% têm eficácia in vitro contra norovírus murino, vírus Ebola e vários coronavírus.


Se outros produtos são tão eficientes quanto o álcool gel 70%.

Tomando como comparação algumas pesquisas realizadas com o vírus influenza H1N1, tais como Efficacy of Soap and Water and Alcohol-Based Hand-Rub Preparations against Live H1N1 Influenza Virus on the Hands of Human Volunteers [Eficácia de sabonetes e preparações à base de água e álcool para esfregar as mãos contra o vírus vivo da influenza H1N1 nas mãos de voluntários humanos].


Os autores chegaram à conclusão que “[…] a higienização das mãos com sabonete e água ou com álcool é altamente eficaz na redução do vírus influenza A em mãos humanas, embora a combinação sabonete e água seja a intervenção mais eficaz. A higienização das mãos de forma apropriada pode ser uma importante iniciativa de saúde pública para reduzir a transmissão da pandemia e da gripe aviária”. Os pesquisadores avaliaram as seguintes soluções alcoólicas [álcool gel 61,5%; álcool gel 70% mais 0,5% de solução de clorexidina, ou isopropanol 70% mais 0,5% de solução de clorexidina].


Considerações finais.

Ao consultar a literatura especializada, o teor de 70% para o álcool em gel parece ser um “consenso” sem muito fundamento, uma vez que não há uma unanimidade indicando que este percentual possui um grande espectro microbiano. Pelo contrário, há microrganismos que são mais suscetíveis ao efeito do álcool etílico e outros são menos suscetíveis necessitando de um percentual maior de álcool para serem mortos ou de um tempo de exposição maior com esse desinfetante. A própria agência Centros de Controle e Prevenção de Doenças apresenta de forma clara essa conclusão ao considerar que a concentração ideal de álcool etílico é entre 60% a 95%.

Considerando o exposto anteriormente, observa-se que a presença de água para o efeito desinfetante do álcool etílico é fundamental, mas não há nada que indique que produtos com concentração menor ou maior do que 70% sejam ineficazes contra microrganismos. Nesse aspecto o bom senso é fundamental, na ausência de álcool em gel 70% outro produto (cujo contato com a pele seja possível) com concentração próxima poderia ser utilizado para a mesma finalidade. O combustível álcool, por exemplo, é um produto que não foi produzido para contato com a pele então seu uso deve ser evitado (seja para ser usado como é adquirido de postos de combustível ou ainda diluído com água).

Na ausência do álcool em gel 70%, assim como de outros produtos à base de álcool, o sabonete comum (ou com substâncias antissépticas em sua composição) e água corrente continua sendo um bom método para higienização das mãos.


Nota.

Álcool em gel forma de apresentação e comercialização de álcool etílico que se popularizou como saneante no início dos anos 2000. Em 2002 a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), considerando os riscos oferecidos à saúde pública, determina que para formulações que apresentem valores superiores ou igual a 68% de álcool etílico a viscosidade do produto deve ser alta, logo a forma em gel foi a solução tecnológica mais simples de ser empregada pelas indústrias que produzem esse tipo de produto.

Em resolução publicada há alguns dias, a Anvisa determina que “[…] fica permitida de forma temporária e emergencial, sem prévia autorização da Anvisa, a fabricação e comercialização das preparações antissépticas ou sanitizantes oficinais dispostas a seguir”: álcool etílico 70% (p/p); álcool etílico glicerinado 80%; álcool gel; álcool isopropílico glicerinado 75%; e digliconato de clorexidina 0,5%.

Álcool absoluto, também conhecido como álcool puro ou álcool anidro, possui uma concentração mínima de 99,6%. Esse tipo de álcool é um solvente utilizado em laboratórios de pesquisa, por exemplo, e não é comercializado para o grande público.

Referências

Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução - RDC nº 350, de 19 de março de 2020. Disponível em: http://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-rdc-n-350-de-19-de-marco-de-2020-249028045

BOYCE, J. M. Alcohols as surface disinfectants in healthcare settings. Infection Control & Hospital Epidemiology, v. 39, n. 3, p. 323-328, 2018.

CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Guideline for hand hygiene in health-care settings. Disponível em: https://www.cdc.gov/mmwr/PDF/rr/rr5116.pdf.

GRAYSON, M. L.; MELVANI, S.; DRUCE, J.; BARR, I. G.; BALLARD, S. A.; JOHNSON, P. D. R.; MASTORAKOS, T.; BIRCH, C. Efficacy of soap and water and alcohol-based hand-rub preparations against live h1n1 influenza virus on the hands of human volunteers. Antiviral Efficacy of Hand Hygiene, CID 2009:48, p. 287-291, 2008.

LARSON, E. L.; COHEN, B.; BAXTER, K. A. Analysis of alcohol-based hand sanitizer delivery systems: efficacy of foam, gel, and wipes against influenza A (H1N1) virus on hands. American Journal of Infection Control, v. 40, n. 9, p. 806-809, 2012.

LOWBURY, E. J. L.; LILLY, H. A.; BULL, J. P. Methods for disinfection of hands and operation sites. British Medical Journal, v. 2, p. 531-536, 1964.

PRICE, P. B. Ethyl alcohol as a germicide. Archives of Surgery, v. 38, n. 3, p. 528-542, 1939.

SMITH, C. R. Alcohol as a disinfectant against the tubercle bacillus. Public Health Reports, v. 62, n. 36, p. 1285-1295, 1947.

KAMPF, G. Efficacy of ethanol against viruses in hand disinfection. Journal of Hospital Infection, v. 98, n. 4, p. 331-333, 2018.


Autor: Adriano Lopes Romero

Químico formado pela UEM, mestre em Química (doutorado incompleto) pela Unicamp, doutorando em Educação em Ciências pela Unioeste, professor de Química da UTFPR - câmpus Campo Mourão.

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