• Alef G. C.

Novas fronteiras da epidemiologia:as epidemias na era da (des)informação

As novas epidemias (quando ocorrem vários casos de uma determinada doença em vários locais ao mesmo tempo), e os surtos (muitos casos de uma doença em um único local) de velhas doenças têm sido assuntos recorrentes nas mídias no Brasil e no mundo atualmente. Associados a eles, também estão a era das redes sociais e as informações compartilhadas por milhares de usuários quase em tempo real, mas que nem sempre estão corretas ou são provenientes de fontes confiáveis, e qual será a ligação entre estes pontos? A epidemiologia é a ciência que trabalha com os dados gerais das populações e a ligação destes dados com as manifestações de doenças e a manutenção da saúde, avaliando os fatores que envolvem os riscos epidemiológicos existentes e apontando possíveis caminhos para saúde pública como um todo. A cada dia surge um novo desafio neste campo de pesquisa, e é preciso se adequar rapidamente para dar respostas aos inúmeros surtos e epidemias que ocorrem.



Texto de Andreia Silva


Mãe de um menino de 6 anos. Doutora em Medicina Tropical pelo Instituto Oswaldo Cruz/FIOCRUZ, atua na linha de pesquisa em Diagnóstico, Epidemiologia e Controle. Participa da coordenação do PUB-Houston no Texas/EUA (Pesquisadores e Universitários Brasileiros). Consultora e divulgadora cientifica, palestrante em saúde da mulher e família, colabora em projetos sociais voltados a comunidade brasileira residente em Houston. Voluntaria na escola pública Barbara Bush Elementary no Harris Country/Houston. É mestre em Biociências e Saúde pelo Instituto Oswaldo Cruz/FIOCRUZ, especialista na temática de Riscos Socioambientais e comunidades carentes urbanas. Bióloga formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro/UERJ. Participou da Comissão de Integridade Científica do Instituto Oswaldo Cruz/FIOCRUZ. Possui MBA em Gerenciamento de Projetos pela FGV-RJ. Nos últimos 20 anos, atuou em Saúde Pública com atividades de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação Tecnológica.




As novas epidemias (quando ocorrem vários casos de uma determinada doença em vários locais ao mesmo tempo), e os surtos (muitos casos de uma doença em um único local) de velhas doenças têm sido assuntos recorrentes nas mídias no Brasil e no mundo atualmente. Associados a eles, também estão a era das redes sociais e as informações compartilhadas por milhares de usuários quase em tempo real, mas que nem sempre estão corretas ou são provenientes de fontes confiáveis, e qual será a ligação entre estes pontos? A epidemiologia é a ciência que trabalha com os dados gerais das populações e a ligação destes dados com as manifestações de doenças e a manutenção da saúde, avaliando os fatores que envolvem os riscos epidemiológicos existentes e apontando possíveis caminhos para saúde pública como um todo. A cada dia surge um novo desafio neste campo de pesquisa, e é preciso se adequar rapidamente para dar respostas aos inúmeros surtos e epidemias que ocorrem.



Atualmente, encontramos facilmente nas redes sociais matérias com conteúdo sem base cientifica acerca de quase todos os assuntos que envolvem saúde, e, geralmente, não possuem a devida qualidade técnica, mas podem oferecer perigo real a vida em sociedade. Circulam notícias sobre novos surtos de doenças que há bem pouco tempo eram consideradas erradicadas ou controladas, por exemplo, temos o sarampo e a poliomielite. Diante do surgimento de epidemias e das informações veiculadas rapidamente, é necessário ampliar a atuação dos profissionais de pesquisa em saúde e adaptá-las às necessidades tecnológicas e sociais para que se possa responder com eficiência e no menor prazo possível. As informações difundidas na internet facilmente ganham simpatizantes.


No entanto, quando um tema é baseado em equívocos ou mentiras, as desinformações, e escolhido como verdade absoluta pelas pessoas, acaba por moldar a forma de agir destas pessoas e expõe a população como um todo aos inúmeros riscos, inclusive de doenças, isso pode trazer resultados catastróficos para a nossa vida. Esta situação é bem complexa socialmente, pois exige acompanhamento e reflexões com analises e atuações urgentes em diferentes frentes profissionais, não apenas da comunidade cientifica, mas de todos os cidadãos que ainda acreditam na saúde como um bem maior. Desenvolvo minhas pesquisas na fronteira desta complexa ligação entre os conteúdos expostos na mídia em geral, os grupos de pessoas que se associam em apoio a ideias equivocadas, os riscos epidemiológicos, as informações da saúde da população e os dados demográficos (número de habitantes de uma cidade, faixas etárias, sexo, etc). Busco monitorar nas redes sociais os potencias danos às condições de saúde da população, avaliando os acontecimentos que podem gerar comportamentos de riscos e, assim, prever possíveis surtos de doenças e até mesmo qual a população pode ser a mais atingida.



Durante a pesquisa de minha tese de doutorado, avaliamos a ligação das doenças negligenciadas e seus perfis epidemiológicos às condições de pobreza. Procuramos desvendar a realidade de algumas doenças infecciosas que, geralmente, são associadas às populações mais pobres, para verificar se atingem, mais ou menos, este seguimento social e qual o impacto destas doenças na vida cotidiana das pessoas e famílias. Ao longo do nosso trabalho, descobrimos que algumas doenças estão mudando seus perfis epidemiológicos e já não respeitam mais as barreiras de classe ou região para causarem surtos. Atualmente, desenvolvo pesquisas no acompanhamento também de surtos das doenças imunopreveníveis (as que são controladas com a aplicação de vacinas), a atuação de grupos antivacinas e os anticiencias no cenário nacional e mundial tal como movimentos populares pautados em desinformações compartilhadas como verdades absolutas, e como isto pode trazer risco real de novos surtos com velhas doenças ou aumentar os riscos à saúde pública como um todo.



No Brasil, o Programa Nacional de Imunizações (PNI) iniciou na década de 1980 a redução em casos e mortes por complicações de doenças como tétano, coqueluche, sarampo e poliomielite, como resultado de campanhas de vacinação com obrigatoriedade. O programa foi ampliado nas últimas duas décadas, incorporando vacinas contra doenças diarreicas, pneumonias, meningites, hepatites A e B e varicela. Essas ações reduziram o surgimento e o impacto de várias doenças, assim como a consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS), a expansão da Estratégia de Saúde da Família e a oferta de água potável também contribuíram para a importante redução da mortalidade infantil e do aumento na expectativa de vida da população brasileira.



No entanto, o país tem passado por recorrentes cortes no orçamento do SUS, o que impacta, diretamente, no acompanhamento e nas respostas às novas situações epidemiológicas, na capacitação dos profissionais da área de saúde, nas campanhas de conscientização e educação junto à sociedade, no atendimento dos pacientes, na rede de produção e distribuição de medicamentos e vacinas, e faz também com que áreas de difícil acesso e cidades pequenas sofram com falta de cuidados com a saúde de sua população.



Vale ressaltar que o risco de novas epidemias é real, e pode atingir a todos de maneira igualitária. Pois, as doenças não respeitam as barreiras geográficas existentes diante da atual mobilidade humana, e nem tampouco respeitam hierarquias e diferenças entre classes sociais, políticas e/ou origens regionais. Desta forma, seguimos atuando em Epidemiologia e buscando constantemente melhores formas de responder às necessidades surgidas a cada momento no campo da saúde. Procuramos monitorar, avaliar, verificar, mapear, e propor soluções para assegurar uma boa qualidade de vida à população de maneira rápida e com o menor impacto possível. Este e um trabalho transdisciplinar, que atua nas diversas fronteiras do conhecimento com muitos outros profissionais visando ao melhor para a saúde pública. A ciência tem se adaptado às novidades deste século, no entanto, há muito caminho a percorrer ainda.



Referências



• Ujvari, Stefan Cunha. Pandemias: A humanidade em risco. São Paulo: Contexto, 2011. 220 p. ISBN: 978-8-7244-632-7

• Ujvari, Stefan Cunha. A história e suas epidemias. A convivência do homem com os microrganismos. Rio de Janeiro, Senac Rio; São Paulo, Senac São Paulo. 2003. 311

• Souto-Marchand, Andreia Silva de & Carvalho-Costa, Filipe Anibal. Alertas epidemiológicos no Brasil: contribuição ao tema. in “Integridade Científica, Saúde Pública, Bioética e Educação em Saúde no Instituto Oswaldo Cruz”. (Cassimiro & Diós-Borges orgs). Ed Fi: Rio Grande do Sul: 2017. 260

• Souto-Marchand, Andreia Silva de. Doenças infecciosas e suas correlações com indicadores socioeconômicos e demográficos: estudo ecológico em diferentes estados brasileiros. Tese (Doutorado). Instituto Oswaldo Cruz. Pós-graduação em Medicina Tropical; RJ: 2017.

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