• Alef G. C.

Mulheres em tempos de Covid-19




O isolamento social e as medidas de prevenção da doença causada pelo CoronaVirus, a COVID-19, tem dividido opiniões entre os brasileiros, mas principalmente evidenciou as assimetrias sociais já presentes no país. Algumas questões que atingiram especialmente as mulheres tem vindo à tona de forma mais acirrada, especialmente para as mulheres negras e pobres que ocupam os estratos mais baixos da pirâmide socioeconômica do país.


Texto de Juliana Márcia Mulher negra da periferia de Salvador. Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal da Bahia (2017), Mestra em Estudos Interdisciplinares Sobre Mulheres, Gênero e Feminismos pela Universidade Federal da Bahia (2020) e Doutoranda em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Membro do Laboratório de Tecnologias Sócio-Raciais e Metodologias em Redes (LATER). Membro do Corpo Editorial da Revista Feminismos. Pesquisa principalmente sobre Mães negras na universidade, redes de assistência, assistência estudantil, maternidade e carreira, gênero nas ciências e mulheres negras nas ciências.


Embora a população em geral esteja prejudicada com a situação colocada pela pandemia, há indícios que demonstram que as mulheres são as mais prejudicadas. Com a presença de toda a família em casa por causa do fechamento das escolas e de alguns postos de trabalho a carga do trabalho doméstico é o primeiro elemento que surge nos relatos das mulheres. A histórica concentração do trabalho doméstico na mão das mulheres acirra-se e atinge agora todas as camadas sociais, tendo em vista que algumas famosas e economicamente abastadas têm utilizado as redes sociais para se queixar. Diante de tal sobrecarga dados do Parent in Science demonstram que pesquisadoras mulheres tem encontrado maiores dificuldades para se manterem ativas publicando durante a pandemia, contudo para àquelas que são mães a situação que já era difícil, encontra-se ainda pior. Contudo são as mulheres mais pobres as mais sobrecarregadas, pois tendo em vista que a extensão das famílias é maior nessas camadas sociais, estas possuem mais pessoas sob os seus cuidados, logo mais atividades.


Outro elemento que tem estado no centro da discussão é o aumento dos casos de violência doméstica e feminicídio durante este período, pois segundo o site Think Olga “os casos de violência doméstica aumentam em períodos de estresse e perturbação prolongados, como crises financeiras e desastres naturais”. Para eles o desemprego em especial pode desencadear o aumento do consumo de álcool que por sua vez tem estado associado ao aumento da gravidade e da frequência da violência doméstica. Contudo, ressalto que esses elementos externos são apenas um gatilho para a violência que reside verdadeiramente na desigualdade dos papéis sociais de homens e mulheres. O medo do contágio da doença tem dificultado que essas mulheres busquem os órgãos de policiamento ou até mesmo que busquem abrigo na casa de parentes e amigos.


Dados da ONU Mulheres demonstram que os papéis sociais também integram uma outra questão no que tange a saúde das mulheres na pandemia, pois sua vinculação social ao cuidado às coloca como principais cuidadoras dos afetados pela doença nos lares, mas também na linha de frente como trabalhadoras da área de saúde. As mulheres são, segundo dados do IBGE 90,39% dos profissionais de enfermagem do Brasil são mulheres, enquanto nos níveis técnicos e auxiliares de enfermagem totalizam 86,93%. Desta forma a feminização histórica do cuidado com a saúde no Brasil torna as mulheres desproporcionalmente afetadas pela COVID-19. Ainda sobre a saúde, ressalta-se que o acesso precário, já enfrentado pela população pobre que depende exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS), tem enfrentado novos problemas diante da superlotação e da falta de recursos no referido sistema. O alto risco de contágio da doença tem causado medo na população que por exemplo deixam de buscar assistência à saúde quando percebem sintomas iniciais de outras doenças que podem ter consequências evitadas se tratadas desde o início. Embora a situação seja precária ainda não chegamos ao final da pandemia e não há previsão de quando chegaremos, contudo, a ONU já prevê que a condição de pobreza extrema no país deve atingir o índice de 9,5% até o fi m de 2020. A prevenção da doença tem se apresentado então como a melhor alternativa para evitar maiores impactos no país.

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