• Rachel Hauser Davis

Mudanças climáticas, a perda da Biodiversidade e a relação direta com a Saúde Pública

Embora ao longo da história do nosso planeta o clima tenha sempre sofrido alterações e diversas ondas de extinção tenham ocorrido, estas mudanças sempre ocorreram de maneira gradual, dando tempo para que espécies e ecossistemas conseguissem se adaptar às condições em mutação. Mudanças climáticas rápidas, porém, afetam negativamente a capacidade de adaptação dos ecossistemas e dos indivíduos vivos que ali habitam, levando, portanto, a perdas de Biodiversidade de forma exacerbada. De fato, de acordo com a Avaliação Ecossistêmica do Milênio, que compreende uma avaliação realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU) acerca dos efeitos dos impactos humanos sobre o meio ambiente, as mudanças climáticas provavelmente se tornarão uma das causas mais significativas da perda de Biodiversidade até o final do século

Neste cenário, diversas preocupações acerca da saúde ambiental do nosso planeta têm sido levantadas. Porém, além do contexto ambiental, estudos realizados pela Convenção da Diversidade Biológica e Organização Mundial da Saúde indicam que a perda da Biodiversidade causa diversos impactos deletérios também para a Saúde Pública. Por exemplo, de acordo com a ONU, eventos climáticos extremos serão cada vez mais frequentes nos próximos anos, e mudanças nos padrões de precipitação e seca terão impactos significativos tanto sobre a Biodiversidade quanto sobre as populações humanos, levando a redução nos estoques de água doce do planeta, rendimentos agrícolas reduzidos, impactos na saúde das populações humanas nas cidades devido ao calor e inundações e erosão nas áreas costeiras.

Outros efeitos das mudanças climáticas compreendem a acidificação dos oceanos, resultante de maiores concentrações de dióxido de carbono na atmosfera, a perda do gelo marinho do Ártico, que vem causando o aumento dos níveis da água do mar, o descongelamento do permafrost (ou pergelissolo em português, o solo encontrado na região do Ártico), que, ao descongelar, pode vir a liberar vírus e bactérias contra as quais a vida no planeta não tem apresenta nenhum mecanismo defesa atual, e modificações extremas em correntes marinhas, que levarão a mudanças nos padrões atuais de migração de espécies marinhas e na redução significativa da pesca comercialmente importante em todo mundo.

Uma relação direta entre a Biodiversidade e a Saúde Pública também pode ser citada na forma do papel crucial da Biodiversidade na nutrição humana devido a sua influência na produção mundial de alimentos, pois com uma alta Biodiversidade é garantida a produtividade sustentável dos solos e recursos genéticos amplos para todas as culturas de alimentos de origem vegetal, a criação de animais na forma de gados e aves de corte e a suinocultura, dentre outros, e espécies marinhas colhidas para a alimentação humana.

Desta forma, os objetivos gerais da Convenção sobre Diversidade Biológica e da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climáticas indicam uma importância cada vez maior da conservação dos ecossistemas naturais terrestres, de água doce e marinhos e a restauração de ecossistemas degradados, incluindo com relação a diversidade genética e de espécies, pois os ecossistemas desempenham um papel fundamental no ciclo global do carbono e na adaptação às mudanças climáticas, ao mesmo tempo em que fornecem uma ampla gama de serviços ecossistêmicos essenciais para o bem-estar humano e o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Por exemplo, habitats conservados ou restaurados podem remover dióxido de carbono da atmosfera, ajudando assim a lidar com as mudanças climáticas. Além disso, conservar ecossistemas intactos, como manguezais, por exemplo, pode auxiliar na redução de outros impactos desastrosos das mudanças climáticas, como enchentes e tempestades.

Assim, evidencia-se de forma clara e inegável que a degradação dos ecossistemas e os problemas de Saúde Pública compartilham ameaças comuns, e que estudos multidisciplinares são extremamente necessários. É, portanto, retrógrada e inválida a ideia de que a Saúde Pública não está interconectada com outras áreas de conhecimento e que deve ser estudada de forma distinta de estudos ambientais categorizados como “básicos”, como, por exemplo, avaliações de risco ambientais, estudos de biomonitoramento e avaliações ecológicas.


Rachel Ann Hauser-Davis

Bióloga, Mestre e Doutora em Química Analítica

Pesquisadora

Fiocruz

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