• Margareth Anjos

MÃE, MULHER e NEGRITUDE


“Mariana começava a se arrumar às onze horas para ir à escola. Onze e meia, no máximo, sua mãe, Adriana, chamava-a para saírem de casa sem atrasos. Quase sempre era sua mãe quem a levava; uma vez ou outra, quando conseguia um trabalho de faxina, era a avó quem se ocupava dessa tarefa. Geralmente, Adriana procurava trabalhos à noite para estar com os filhos durante o dia. Mariana gostava quando a mãe ia fritar salgados em festas ou servir em alguma recepção: quando a patroa não era muquirana, sobravam salgadinhos e até pedaços de bolo que Adriana levava para casa. ” (Negras Crônicas Escurecendo os Fatos, pág. 19)



Vamos refletir sobre o papel na sociedade desta mulher, em maioria periférica? Vale lembrar que as necessidades das mulheres negras são muito peculiares, e não podem ser tratadas de maneira genérica diante de suas especificidades, já que estas se concentram majoritariamente em espaços geográficos mais violentos e preenchidos pela vulnerabilidade econômica e social. Devemos trazer à memória também que esta mesma mulher ainda vive ainda os resquícios do período pós-escravidão, apesar dos mais de 100 anos do seu fim oficial. A segregação racial que as marginalizam e mantinham o racismo estrutural se perpetua até os dias de hoje.


É necessário conjecturar ainda que o tratamento dado às mulheres negras no período escravocrata foi intensificado. Angela Davis (2016) evidencia que as escravizadas sofreram de forma mais intensa as mazelas do racismo. Essas mulheres estavam ainda expostas a todas as formas de violência sexual. Assim, sua condição feminina era explorada, também, segundo um propósito rentável.


O tormento era particularmente grande para as mulheres escravas que ficavam separadas dos homens em porões mais próximos dos alojamentos da tripulação. Ali, elas estavam vulneráveis ao assédio e ao estupro por parte dos oficiais e marinheiros, sem ninguém que pudesse defendê-las. O assalto sexual começava ainda antes da partida do navio. (GOMES, 2019, p. 288)


A condição de ‘fêmeas’ as vinculava à reprodução, vistas como uma garantia de aumento e manutenção da força de trabalho escravo, como “fazedoras de nascimentos/breeders”- animais, cujo valor monetário podia ser calculado precisamente em função da sua habilidade em multiplicar os seus números. No que se relaciona às formas de castigos e mutilações, recebiam as mesmas punições que homens, como também estavam vulneráveis a violências sexuais. (DAVIS, 2016, p.11-12). Desta maneira, quando economicamente vantajoso, eram exploradas tal como os homens eram, sem distinção de gênero, mas as formas também eram ajustadas para, quando lucrativo, explora-las, castigá-las e reprimi-las, utilizando sua condição feminina, como também aponta hooks (2014).


As mulheres negras escravizadas que se moviam livres no convés eram um alvo acabado para qualquer homem branco que podia escolher o abuso físico e torturá-las. Inicialmente todos os escravos a bordo no navio eram marcados a ferro com um ferro quente. Um “gato de nove caudas” era usado pelos escravagistas para chicotear esses africanos que choravam por dor ou resistiam à tortura. As mulheres eram chicoteadas severamente por chorarem. Eram despidas das suas roupas e batidas em todas as partes do seu corpo. Ruth e Jacob Weldon, um casal africano que experienciou os horrores da passagem da escravatura, viram “mães com bebês em seus seios vilmente marcados e com cicatrizes, de tal forma que parecia que o próprio céu podia ferir os algozes infernais com a desgraça que eles tão ricamente mereciam”. Depois de marcados a ferro, todos os escravos eram desnudados de todas as roupas. A nudez das mulheres africanas servia de constante lembrança da sua vulnerabilidade sexual. A violação era um método comum de torturar escravas usado para submeter mulheres negras rebeldes. A ameaça da violação ou de outra brutalização física inspirava terror nas mentes deslocadas das mulheres africanas. (hooks, 2014, p.15-16)


Ainda sob a reflexão de Davis (2016), podemos perceber que o que foi produzido pela modernidade e a separação produzida entre a casa e economia pública, trazida pelo capitalismo industrial, instituiu a inferioridade feminina mais consistente. Neste cenário, nas palavras da autora, “Mulher” tornou-se um sinônimo da propaganda prevalecente de “mãe” e de “dona-de-casa”, e ambas “mãe” e “dona-de-casa” eram uma marca fatal de inferioridade. Mas, entre as mulheres negras escravizadas, esteve vocabulário não tinha lugar. Os arranjos econômicos da escravatura contradiziam a hierarquia do papel sexual da nova ideologia. (DAVIS, 2016, p.16). As mulheres negras escravizadas eram classificadas em duas categorias: as trabalhadoras do eito e a mucama (GONZALEZ, 2016, p.403). As do eito faziam um trabalho diário pesado, sofrendo ainda com a subalimentação. Os suicídios eram frequentes, uma maneira de evitar que seus filhos também sofressem do mesmo mal.


Segundo Mott (1988), quando os filhos eram pequenos demais para acompanhar a mãe na execução destes trabalhos, e não havia nenhuma escrava velha que cuida desse deles na fazenda, eram amarrados às suas costas enquanto continuavam carpindo, semeando, etc. ou ficavam em pequenas choças ou ao relento nas cercanias da área que estava sendo cultivada. (MOTT, 1988, p.21)


As sequelas do período escravocrata ainda têm efeitos drásticos. Estamos ainda, sob as nuvens do pós abolição. Para a mulher negra há uma dificuldade maior de encontrar lugar no mercado de trabalho, por isso, em maioria, tendem a ocupar postos considerados desvalorizados, o que faz com que permaneçam na marginalidade, informalidade e precariedade impostas historicamente, condição agravada pela pandemia da Covi-19. Nessa conjuntura a mulher negra sofreu maior negligência de direitos, pois, não tinha local de fala, escuta ou voz. Em suma, não lhe fora permitido ocupar posição de falar por si mesma. Sendo assim, os motivos que discriminam a mulher, e em especial a mulher negra germinaram de uma semente escravocrata e capitalista que a colocou como inferior e em um lugar de violências das mais diversas.


Muitas dessas mulheres têm como sua ocupação principal o trabalho doméstico, muitas vezes informal e com jornadas de trabalho que não condizem com a preconizada pela legislação vigente. Essa mulher negra, periférica e trabalhadora doméstica, provavelmente tem como patroa uma mulher branca com ocupações diversas entre trabalho, estudo, cuidado com filhos, casa... Partes desses afazeres acabam sendo atribuídos para essa trabalhadora.


Atualmente, há uma palavra muito presente no universo feminista: “sororidade”. Etimologicamente o termo decorre da palavra soror, irmã preconizando a irmandade, a solidariedade entre mulheres. Porém, em um artigo publicado pela Revista Claudia, em 8 de março de 2018, “Vilma Piedade, mulher preta – e não negra, conforme delimitou o europeu branco -, feminista e antirracista, percebeu que a sororidade não dava conta das questões raciais com as quais vinha se debruçando há tempos. ” “Não é sororidade, é dororidade. É uma dor específica, que une todas as mulheres, mas que é agravada pelo racismo, que só a mulher preta, só a juventude preta vai sentir”, afirma. A necessidade em se criar esse novo conceito transformou-se em livro, Dororidade, lançado em novembro de 2017 pela editora Nós. ”


O conceito surge do dessas dores, já que a sororidade não dialogava diretamente com as mulheres negras cujas pautas eram deixadas “para amanhã”. O caminho que percorro nessa construção conceitual me leva a entender que um conceito parece precisar do outro. Um contém o outro. Assim como o barulho contém o silêncio. Dororidade, pois, contém as sombras, o vazio, a ausência, a fala silenciadas, a dor causada pelo Racismo. E essa Dor é Preta.” (PIEDADE, 2017, p. 16)


O racismo agrilhoado ao sexismo promove ainda a jornada tripla de trabalho. Muitas trabalhadoras negras têm a necessidade de se distanciarem de seus lares e filhos para prover o sustento da família. Desta forma, são elas que cuidam dos filhos das mulheres com melhor condição financeira, deixando seus próprios filhos sem a sua presença. As creches públicas não atendem a demanda por vagas e há a necessidade dos filhos maiores cuidarem dos menores, assim as atribuições das mulheres pobres se acumulam e quando voltam do trabalho, há ainda as tarefas do seu lar.


A discussão em tela aponta apenas algumas disparidades provocadas pelo racismo estrutural, mas são essenciais para se compreender a necessidade de uma vertente peculiar dentro do feminismo e da maternidade. É importante pensar sobre onde estão as mulheres negras hoje, mais importante ainda é refletir onde estiveram em toda a sua construção enquanto mulheres. As vivências acumuladas pelas mulheres negras historicamente são alicerçadas por uma vida de trabalho intermitente. Atualmente sob o domínio dos seus patrões, ora sob a chibata dos seus feitores. Essa rotina de violações vem sendo transmitida por gerações, deixando um duro legado de dores, resistência e perseverança.


Texto por Margareth dos Anjos

Doutoranda em Arte e Cultura Contemporânea, UERJ

Autora do livro “A Construção da Identidade da Criança Negra pela Ludicidade do Jongo” e coautora do livro “Negras Crônicas – escurecendo os fatos”.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • BARROS, Sílvia. Estrelas. In Negras Crônicas Escurecendo os Fatos. Ed. Villardo. Pág. 19. 2019.

  • DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016.

  • GOMES, Laurentino. Escravidão – do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares. Vol. I. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2019.

  • GONZALES, Lélia. A mulher negra na sociedade brasileira: uma abordagem político-econômica. In: Problemas de gênero. Ensaios brasileiros contemporâneos. Rio de Janeiro: Funarte, 2016.

  • hooks, bell. Não sou eu uma mulher: mulheres negras e feminismo. Plataforma

Gueto, 2014

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