• Alef G. C.

Fundamental é mesmo a interação, é impossível viver sozinho

Amanda Silva


Bióloga pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e quase mestre em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)





Ninguém vive sozinho” é uma frase normalmente associada a textos de autoajuda. No entanto, biologicamente falando, ela faz todo sentido! Interações são bastante comuns na natureza. Durante a vida, um organismo interage com uma série de outros seres vivos. Algumas dessas interações resultam em algo positivo pros dois organismos envolvidos (como nos mutualismos), enquanto outras interações podem ser positivas para um e negativa para outro (como na predação) ou até mesmo podem ser negativas para ambos os envolvidos (como na competição). Mas o que é mais legal nessas interações é que elas são dinâmicas. Isso significa que o resultado delas pode mudar dependendo de uma série de fatores, como com quem os organismos interagem ou como é o ambiente em que a interação ocorre. Ok, isso pode parecer um pouco confuso, então, vou exemplificar. Vamos supor que você é um confeiteiro e tem uma encomenda de um bolo de morango para o final de semana. Seu fornecedor, por uma pequena distração, anotou que você precisava de maracujá (e não de morango). Você não tem como buscar morangos de jeito nenhum, então, você prepara um bolo de maracujá e torce para o cliente gostar. Para a sua surpresa, o cliente não só gostou, como encomendou outro bolo de maracujá e postou em todas redes sociais como seu bolo estava maravilhoso! Num primeiro momento, o seu fornecedor te prejudicou (ele não te forneceu o ingrediente que você precisava) e a sua relação com ele era negativa (talvez você até pensasse em trocar de fornecedor). No entanto, ao receber um retorno positivo do cliente (com uma nova encomenda e um compartilhamento nas redes sobre como o seu bolo estava gostoso), a sua relação com o fornecedor mudou. De fato, você pode até agradecê-lo por ter trocado o ingrediente principal do bolo, uma vez que você obteve o sucesso desejado com o cliente.



Na natureza, o ajuste no resultado de uma interação funciona de modo semelhante à história do bolo. Por exemplo, existem bactérias que interagem com as raízes de algumas plantas e que disponibilizam nitrogênio para essas plantas. Essas bactérias são conhecidas como rizóbios. Como o nitrogênio costuma ser um elemento que limita o crescimento das plantas, ter rizóbio por perto é importante para que esse crescimento aconteça. Como pagamento, as plantas oferecem compostos açucarados (um tipo de comida) para os rizóbios. Parece uma relação bastante harmônica. No entanto, nem sempre os rizóbios fornecem nitrogênio para as plantas (mas mesmo assim, eles continuam recebendo a comida). Isso não parece ser bom para a planta, afinal, ela está disponibilizando algo para um parceiro sem obter nada em troca. Mas numa situação em que a planta pode ser bastante consumida por herbívoros, ter um rizóbio que não fornece nitrogênio é bom. Isso acontece porque as folhas de plantas com pouco nitrogênio são menos atrativas para herbívoros, logo, são menos consumidas. Nessa situação, ter um parceiro que não te fornece o que você precisa te ajuda a se sair bem na história.



Por muito tempo, nós entendemos as interações entre os organismos como algo estático e colocamos as relações em caixinhas separadas, como se elas não pudessem ser diferentes. Por exemplo, as acácias são árvores que são defendidas por formigas. Sim, formigas defendem árvores. As árvores fornecem alimento ou abrigo para as formigas e, em troca, as formigas expulsam organismos que poderiam se alimentar da árvore. É uma parceria já de longa data. Várias espécies de formigas podem defender uma acácia, em alguns casos, uma espécie por vez. Uma dessas espécies de formiga é a Crematogaster nigriceps. Mas essa espécie não só defende a planta contra possíveis herbívoros, ela castra a planta (temporariamente)! A castração acontece quando a formiga corta os botões florais (lembrando que as flores são o órgão reprodutivo de algumas plantas). Sem flor, a planta não produz fruto. Você deve estar pensando: “mas que formiguinha danada, prejudicando a planta que fornece abrigo e alimento”. Mas existe uma situação em que a formiga, na verdade, ao castrar a planta, acaba sendo de grande ajuda. As acácias podem investir em reprodução ainda na juventude, que é uma fase da vida bastante difícil, com alta taxa de mortalidade. Quando a formiga castra a acácia na juventude, a chance de sobrevivência da planta aumenta (quando comparado com uma acácia não castrada), porque a planta para de investir em reprodução e investe mais em crescimento, passando mais rapidamente pela fase da juventude. E sabe quando é mais comum encontrar essa espécie de formiga interagindo com a acácia? Justamente na fase juvenil da planta.



As interações são dinâmicas e, se a situação muda, é possível que o resultado dela mude também. Em algumas situações, essa mudança pode beneficiar os indivíduos, como no caso de o cliente ter amado o bolo de maracujá. Porém, se por acaso o cliente tivesse detestado o bolo, o resultado teria sido outro: o cliente, infeliz, talvez nunca mais encomendasse com você; você, infeliz pela decepção do cliente, talvez trocasse de fornecedor; e o fornecedor, infeliz, teria que buscar outras pessoas para quem fornecer seus produtos. Como essas interações podem ter resultados diversos, é preciso olhar para cada interação e para o ambiente em que ela acontece para que seja possível não apenas determinar o resultado, como também prever situações que podem alterar os resultados de uma interação. De todo modo, interações são comuns, ainda que não saibamos o resultado dela. Parodiando João Gilberto, “fundamental é mesmo a interação, é impossível viver sozinho''.





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