• Maria Luiza Valeriano

Entomofagia e racismo: os impactos do Coronavírus na alimentação

A pandemia deu espaço para que milhões de usuários da internet atacassem os hábitos alimentares asiáticos

Pesquisas mostram que a pandemia do coronavírus originou na cidade de Wuhan, na China, mas o povo asiático vem sendo alvo de ataques racistas desde muito antes. Nos últimos meses, os comentários e xingamentos se intensificaram e mostram a realidade da opinião ocidental: o asiático é “sujo”, seja pelos costumes comerciais ou hábitos cotidianos.


Apesar de circular vídeos e fotos de pratos considerados no ocidente “exóticos” e uma grande parcela da população brasileira acreditar que o vírus originou desses animais e insetos, não há prova concreta de onde veio. Um estudo mostra que para modificar de forma que afetasse o humano, foi necessário um animal intermediário capaz de transformar o vírus, dentre eles o gato, búfalo, boi, ovelha e pombo. No entanto, vem sendo criticado cada vez mais o consumo de insetos comestíveis, embora não tenha conexão com a pandemia.


Hábito milenar


A entomofagia, ou consumo de insetos, é realizado em diversos países pelo mundo, com foco em partes da Ásia, África e América Latina. No Brasil, a formiga tanajura é consumida no interior de Minas Gerais e na região nordestina. No México, comem grilos e larvas de besouros e borboletas. Na Austrália, os aborígenes comem lagartas de mariposa que se criam em raízes de certos vegetais, dentro outros insetos.


Essa alimentação julgada como maléfica quando percebida em culturas asiáticas tem sido parte da dieta do ser humano desde tempos primitivos e pode apresentar uma alternativa sustentável. Diminuição de gases de efeito estufa, redução do consumo e poluição de água e menor uso de terra e baixa contaminação ambiental são alguns pontos positivos.


Alternativa acessível


Em pesquisa realizada pelas Nações Unidas, defendem que a entomofagia é uma maneira de combater a fome mundial. Registram também que mais de dois bilhões de pessoas suplementam a alimentação com insetos atualmente. Com acesso e baixo custo, os insetos são particularmente importantes na alimentação de crianças desnutridas, uma vez que possuem proteína, minerais e gordura em quantidades ideais.


Como os produtores podem criar insetos com mais facilidade em comparação ao frango ou boi, torna-se mais um fator de como tirar essas comunidades da pobreza uma vez que a procura pelo alimento injeta dinheiro de volta para o local.


Com a pandemia, o consumo de carnes diminuiu devido às paralisações de produtores, transportadores, mercados e compradores, além do risco de contaminação dos animais. O mercado de insetos comestíveis está previsto para alcançar 7,96 bilhões de dólares até 2030 e mostra estar em crescimento, de acordo com estudo realizado pela empresa Meticulous Research.


Riscos


Apesar de mais sustentável, o mercado de insetos também impacta ecossistemas. Segundo a Autoridade Europeia de Segurança Alimentar, seria necessário plano de gestão de resíduos. Outro ponto que é preciso mais análise é quanto à transmissão de parasitas. O estudo aponta que pode apresentar risco biológico e químico se observar o processo inteiramente. Mas a conclusão é de que a forma de criação é essencial para que não haja esse perigo. Assim como carnes possuem técnicas e produtos importantes para a saúde do consumidor, os insetos também têm.


O mercado de insetos comestíveis vem sendo estudado e possui pontos negativos e positivos. Para analisar se é uma boa opção, é necessário se embasar em pesquisas biológicas e socioeconômicas e não no racismo.


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