• Maria Luiza Valeriano

Do quintal para o mundo: cientista brasileira fala sobre o acesso à ciência

Ekarinny Medeiros ganhou premiações e reconhecimento internacional com pesquisa iniciada em Feira de Ciências da escola

Ciência não é só produzida em laboratórios renomados com especialistas. Para alguns, a ciência é feita com um questionamento. Esse foi o caso da Ekarinny Medeiros, graduanda em Biomedicina e ganhadora da feira internacional de ciência e engenharia Intel ISEF, maior feira científica do mundo para estudantes que ainda não chegaram ao ensino superior.


Com 44 participações em feiras e pesquisas e prestígio internacional, a jovem cientista começou sua trajetória na feira de ciências da sua escola estadual em Mossoró, Rio Grande do Norte, em 2016. Ekarinny desenvolveu um cateter bioativo após o falecimento de sua tia devido à uma infecção proveniente do processo de hemodiálise. A infecção foi causada no sangue pelo cateter, o que levou a jovem a pesquisar se havia uma opção antimicrobiana. Ekarinny se chocou com a resposta e consultou sua orientadora, cuja pai também passou pelo procedimento.


Após uma série de perguntas, surgiu uma ligação entre um cateter e seu conhecimento prévio. O Rio Grande do Norte é o segundo maior produtor de caju e castanhas do país. A cajucultura gera resíduos, dentre eles o líquido da castanha do caju, que por sua vez tem propriedades antimicrobianas contra patógenos humanos. Com esse conhecimento, Ekarinny teve a ideia da criação do cateter bioativo.


Nasce uma cientista


Como criança, Ekarinny Medeiros nunca imaginou seguir a carreira da ciência. Seu sonho era ser bailarina ou artista, mas ela se encontrou questionando as ligações entre a saúde e os empecilhos. No dia 18 de maio de 2019, o experimento da Ekarinny ganhou dois prêmios na feira internacional de ciência e engenharia Intel ISEF, ocorrida nos Estados Unidos: um primeiro lugar na categoria Patent and Trademark Office Society e um quarto lugar em Translational Medical Science. Realizada desde 1950, a Intel ISEF é a maior feira científica do mundo para estudantes que ainda não chegaram ao ensino superior. Cientistas ganhadores do Nobel estão entre os jurados.


O cateter custa apenas 10 centavos e conta com o aproveitamento de um resíduo industrial brasileiro. Essa pesquisa não foi realizada com bolsa e as condições favoráveis de trabalho. Ekarinny desenvolveu sua pesquisa no quintal de casa porque sua escola, a E.E. Prof. Hermógenes Nogueira da Costa, na periferia de Mossoró, interior do Rio Grande do Norte, não tem laboratório.


Acesso à ciência


A Cientistas enfrentou muitas adversidades. A caminhada da escola até os palcos internacionais foi longa.

“Em cada etapa eu fui aprimorando minha pesquisa, fui realizando mais e mais testes. Enfrentei a falta de investimento, ausência de laboratórios, mas no fim tudo deu certo.”, relembra.

Apesar da importância do ciência, a pesquisadora, que levou mais de 30 prêmios nesse tempo, ganhou uma bolsa de pesquisa do CNPq, no valor de R$ 100 mensais, com duração de um ano, recurso usado para ajudar no desenvolvimento do cateter bioativo. Hoje, o cateter está com os testes parados. O próximo passo seria terminar os testes in vitro do cateter para que ele possa ser produzido e usado em larga escala.


Ao dedicar-se incansavelmente, Ekarinny conheceu um mundo antes muito distante.

“Eu percebi que o mundo era muito maior do que eu imaginava e que era necessário eu aprender uma nova língua e que isso é muito importante. Poder se comunicar com as pessoas e conhecer lugares novos são experiências enriquecedoras. Mudei minha carreira de uma forma muito positiva. Essas experiências me fizeram sair da minha zona de conforto e pretendo alcançar mais voos.”, aponta a cientista.

Para estimular estudantes como ela, Ekarinny é voluntária no programa Ciência Para Todos no Semiárido Potiguar. O programa é fruto de uma parceria entre a UFERSA – Universidade Federal Rural do Semi-árido, UERN – Universidade Estadual do Rio Grande do Norte e SEEC – Secretaria do Estado de Educação e Cultura do Rio Grande do Norte, que vem sendo desenvolvido desde o ano de 2010.


O objetivo deste programa é estimular o interesse pela ciência nos jovens de localidades remotas do sertão do semiárido. Para isto, o programa envolve etapas de capacitação de professores e alunos sobre o método científico, por meio da Tecnologia social de educação “Metodologia Científica ao Alcance de Todos”- MCAT; oficinas de elaboração de projetos; acompanhamento das atividades de execução dos projetos; feira de ciências nas escolas; feira de ciências nas diretorias regionais; organização da Feira de Ciências do Semiárido Potiguar e, por fim, a participação dos melhores trabalhos em Feiras de Ciências Nacionais e Internacionais.


“Acredito que é necessário falar mais sobre a democratização da ciência. Precisamos espalhar essa boa notícia que a ciência pode ser feita por todos nós e que o lugar de onde eu vim não vai determinar aquilo que sou ou aquilo que posso fazer. Além de nosso país investir mais e mais em ciência e apoiar aqueles que são cientistas.”, disse a pesquisadora.

Ekarinny Medeiros é um exemplo do que pode ser feito com o estímulo e apoio necessários. Como ela, há inúmeras pessoas que poderiam mudar o mundo. De acordo com a cientista, para que a ciência alcance todos, é preciso o entendimento que a ciência é para todos, estimular a criatividade para que a ciência seja feita com a própria ideia do aluno, oportunizar e dar o apoio necessário para o desenvolvimento da mesma e por fim investir e orientar.


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