• Enzo Kaneko Ebert

Crise da geosmina: o que ela nos ensina sobre os riscos das cianobactérias para a saúde pública?


Em janeiro de 2020, uma crise na qualidade da água, que não foi sem precedentes (falarei disso mais adiante), tomou conta dos noticiários. Pessoas em praticamente todos os bairros do Rio de Janeiro experimentaram problemas relacionados ao gosto e odor da água fornecida pela CEDAE. Algumas delas relataram inclusive problemas gastrointestinais, como diarreias e vômitos. As reportagens mostraram também alterações na cor da água distribuída em alguns bairros do Rio e pessoas correndo, desesperadas, aos supermercados para comprar água mineral, causando até mesmo inflação no preço deste produto.


Essa crise foi amplamente divulgada na mídia nacional e internacional. A causa foi atribuída a supostos compostos orgânicos presentes na água com propriedades organolépticas, como gosto de terra e odor de mofo. São compostos voláteis, da classe dos terpenóides (álcoois), denominados geosmina (do Grego: geos=terra, osme=odor) e 2-methylisoborneol (MIB)(Box 1).



Embora ambos os compostos estivessem presentes, a geosmina se popularizou mais, caindo literalmente na “boca do povo”. Como o carioca é muito criativo, surgiram até marchinhas de carnaval e blocos de foliões como o das “Geos-minas” carregando cartazes com frases de efeito como “O carvão pra ativar a sua água” e “Dessa alga não bebereis”(Box 2).


Esta crise durou até aproximadamente meados de fevereiro, quando a CEDAE adotou medidas para remover esses compostos da água (i.e. carvão ativado e argila), que apesar de paliativas em relação ao principal problema – ou seja, o saneamento da bacia do Guandu – mostraram-se bem sucedidas e a água voltou aos padrões normais de potabilidade. Passada a crise, como brasileiro não é bom de memória, a história caiu logo no esquecimento. Ainda mais porque imediatamente após, em março, os primeiros casos de COVID começaram a pipocar no Brasil, voltando toda a atenção da mídia para este novo problema.


Eis que, desde final de janeiro deste ano, estamos passando pela mesma situação. Não sem aviso, pois vários especialistas alertaram para uma possível recorrência, tendo em vista as condições de falta de saneamento e a baixa qualidade da água na captação da Estação de Tratamento de Água (ETA) do Guandu. Três rios altamente poluídos por esgotos domésticos e efluentes industriais (Ipiranga, Queimados e Poços) fazem parte dessa bacia, tornando o tratamento da água pela CEDAE um desafio. Face às condições da água captada, é possível dizer que a água tratada pela ETA da CEDAE pode ser considerada água de reuso, ou seja, praticamente estamos tratando esgotos para obter água potável.


Voltando à causa do problema, o que (ou quem) produz estes compostos com gosto e odor desagradáveis, que tornaram a vida do carioca um inferno nesses dois verões seguidos? Tanto a geosmina quanto o MIB são produzidos por organismos microscópicos chamados de cianobactérias (Box 3).



As cianobactérias são organismos muito primitivos, com aproximadamente 3,5 bilhões de anos. Para se ter uma ideia, as cianobactérias estavam aqui antes dos organismos pluricelulares (i.e. que possuem várias células) se originarem. Foram elas os primeiros organismos a fazer fotossíntese, o que possibilitou a oxigenação da atmosfera do planeta. Hoje em dia, são responsáveis por grande parte do sequestro de carbono nos oceanos e pela liberação de oxigênio, junto com outros seres microscópicos chamados de fitoplâncton. Acontece que as cianobactérias não somente prestam este serviço ao planeta, elas também servem de alimento aos organismos aquáticos, constituindo a base da cadeia alimentar oceânica e de alguns ambientes de água doce. No entanto, as cianobactérias também produzem compostos indesejáveis, do ponto de vista humano, como a geosmina e o MIB, que não são considerados tóxicos nas concentrações normalmente encontradas no ambiente, assim como compostos tóxicos chamados de cianotoxinas. São moléculas de várias classes, como peptídeos (proteínas), alcaloides e lipopolisacarídeos, com propriedades hepatotóxicas (atingem o fígado), neurotóxicas (atingem o sistema nervoso) ou dermatotóxicas (irritantes ao contato).


A microcistina(Box 4) é uma hepatotoxina já bem conhecida do carioca, sendo encontrada nos reservatórios da bacia do Rio Paraíba do Sul, como o do Funil(1) que também contribuiu para o sistema Guandu), e também nas lagoas do Complexo Lagunar de Jacarepaguá(2). Vários estudos mostram que esta toxina pode causar efeitos tóxicos em animais domésticos e selvagens, como também no homem, sendo responsável pelo maior e mais trágico caso de intoxicação humana da história, a Tragédia de Caruaru (PE), onde pacientes de uma clínica de doenças renais foram intoxicados durante as sessões de hemodiálise pela água utilizada nos aparelhos, contaminada com microcistina, o que levou à morte de mais de 60 pacientes(3). Estudos também têm mostrado que a exposição crônica (i.e. pequenas doses por um longo período de tempo) a microcistina pode levar a formação de câncer de fígado e de cólon(4). No caso de Caruaru, a toxina entrou em contato direto com o sangue dos pacientes, o que tornou a exposição mais crítica. Foi como se tivessem injetado a toxina na veia dos pacientes.




Uma das neurotoxinas mais perigosas são as saxitoxinas (Box 5). Podem levar à morte uma cobaia, como um camundongo, com doses muito baixas, em cerca de dois minutos. Em doses crônicas, já foi demonstrado que a saxitoxina pode causar efeitos no sistema nervoso central como perda de memória(5) e estresse oxidativo(6).



Embora não haja casos relatados na literatura científica de morte de pessoas por consumo oral de água contendo cianotoxinas, o consumo de água contaminada aumenta os riscos de problemas crônicos de saúde e até de câncer. Contudo, as cianobactérias já foram suspeitas de causar mortes de pessoas por ingestão de água contaminada por suas toxinas. No município de Paulo Afonso (BA), em 1988, mais de 2000 pessoas que consumiram água proveniente do reservatório de Itaparica, onde ocorrem extensas florações de cianobactérias, experimentaram distúrbios gastrointestinais, sendo que 88 pessoas morreram. No entanto, a causa da morte não pôde ser atribuída à presença de nenhuma cianotoxina, pois não havia no Brasil, à época, capacidade analítica para identificar essas toxinas.


Mas o que tudo isso tem a ver com a crise da geosmina? A falta de saneamento da bacia do Rio Guandu, que contribui com toneladas de matéria orgânica e nutrientes como nitrogênio e fósforo, combustíveis básicos das cianobactérias, tem levado a proliferação massiva destes microrganismos nesse manancial. Outra questão a ser considerada é: Será que as cianotoxinas podem estar presentes na água junto com a geosmina e o MIB? A resposta é sim, podem. Felizmente, nesses dois episódios, não foram encontradas essas toxinas na água tratada pela CEDAE, aquela que chega às nossas torneiras. Diferentemente, na água bruta coletada no local da captação, foram encontrados traços de duas dessas toxinas (microcistinas e saxitoxinas), mas em quantidades abaixo da concentração máxima permitida pela legislação(7). O problema está em que essas toxinas são dificilmente removidas por tratamentos convencionais, como é o caso da agua tratada pela ETA do Guandu. Portanto, o monitoramento constante e com muito rigor deve ser feito pela companhia de abastecimento para que a população não corra riscos.


Essa crise da água no Rio tem precedente? Sim, em 2001 ocorreu uma crise semelhante, onde a proliferação de cianobactérias no Guandu tornou o gosto da água tratada pela CEDAE insuportável(8). Ao contrário dos episódios recentes, foi detectada uma concentração de 0,4 micrograma/L de microcistinas na água tratada e de 0,32 micrograma/L na água de diálise no Centro de Hemodiálise do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da UFRJ. Embora esse evento não tenha levado a fatalidades, a análise do sangue de um grupo de 44 pacientes revelou alterações hematológicas e bioquímicas(9). Isto demostra o quanto o sistema de tratamento de água no Rio de Janeiro tem sido ineficiente para remover estes compostos tóxicos da água e que sempre há um risco potencial da presença destas toxinas na água tratada.


Nos dois episódios recentes, assim como no de 20 anos atrás, ficou demonstrado que pouco aprendemos com essas crises e que a saúde da população continua sendo colocada em risco. Até quando vamos esperar para que medidas efetivas (e não paliativas), como o saneamento de toda a bacia de drenagem do Guandu, sejam realizadas? Há mais de 20 anos que a CEDAE anuncia projetos para resolver o problema da qualidade da água da bacia de captação do Guandu, mas que não saíram do papel. O novo marco do saneamento, aprovado ano passado, estabelece que os municípios têm que atingir a meta de 90% dos seus esgotos tratados até 2036. Vamos esperar até lá para que isso seja resolvido? A privatização da CEDAE resolverá esse problema no médio prazo? Até quando vamos contar com a sorte até que um desses eventos traga sérios problemas de saúde à população? Mais de 9 milhões de habitantes da região metropolitana do Rio de Janeiro, dependentes dessa água, esperam ansiosamente por respostas.


Autor: Aloysio da Silva Ferrão Filho, PhD Laboratório de Avaliação e Promoção da Saúde Ambiental

Instituto Oswaldo Cruz - Fiocruz

aloysio@ioc.fiocruz.br











Referências

1. Teste mostra que água do Funil mata cobaias. Acervo de O Globo, 14 de abril de 2004. Acesso em 03/02/2021: https://acervo.oglobo.globo.com/consulta-ao-acervo/?navegacaoPorData=200020040414

2. Análise em águas da Barra da Tijuca encontra 'grande presença' de toxinas que oferecem risco a banhistas. O Globo, 24 de outubro de 2020. Acesso em 03/02/2021: https://oglobo.globo.com/rio/analise-em-aguas-da-barra-da-tijuca-encontra-grande-presenca-de-toxinas-que-oferecem-risco-banhistas-24710318

3. Tragédia da Hemodiálise que deixou quase 60 mortos completa 20 anos. Portal G1, 04 de fevereiro de 2016. Acesso em em 03/02/2021: http://g1.globo.com/pe/caruaru-regiao/noticia/2016/02/tragedia-da-hemodialise-que-deixou-quase-60-mortos-completa-20-anos.html

4. Falconer, I.R.; Humpage, A.R. (2005) Health Risk Assessment of Cyanobacterial (Blue-green Algal) Toxins in Drinking Water. Int. J. Environ. Res. Public Health, 2(1), 43–50. DOI: https://doi.org/10.3390/ijerph2005010043

5. Diehl, F. et al. (2016) Behavioral alterations induced by repeated saxitoxin exposure in drinking water. Journal of Venomous Animals and Toxins including Tropical Diseases, 22:18. DOI: http://dx.doi.org/10.1186/s40409-016-0072-9

6. Ramos, P.B. et al. (2014) Oxidative stress in rats induced by consumption of saxitoxin contaminated drink water. Harmful Algae 37: 68–74. DOI: http://dx.doi.org/10.1016/j.hal.2014.04.002

7. Sotero-Martins, A. et al. (2020) Caracterização dos períodos de crise e pós-crise hídrica da água bruta da Bacia do Guandu através de parâmetros de qualidade. DOI: https://doi.org/10.1590/SciELOPreprints.571 (Preprint).

8. A água nossa de cada dia por um fio. Acervo de O Globo, 18 de abril de 2004. Acesso em 03/02/2021: https://acervo.oglobo.globo.com/consulta-ao-acervo/?navegacaoPorData=200020040418

9. Soares, R.M. et al. (2006) Sublethal exposure from microcystins to renal insufficiency patients in Rio de Janeiro, Brazil. Environ. Toxicol. 21:95–103. DOI: http://dx.doi.org/10.1002/tox.20160

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