• Maria Júlia

Como o desmatamento aumenta a probabilidade do surgimento de novas pandemias?

As discussões e pesquisas sobre as causas da pandemia da Covid -19 ficaram mais evidentes em estudos recentes, entretanto, pouco é discutido sobre como essa pandemia pode estar relacionada com as questões ambientais. A Covid-19 é uma doença respiratória e cardiovascular nova que foi identificada pela primeira vez na China (Zheng et al. 2020).


Os vírus patógenos aos seres humanos (ex. ebola, gripe suína etc) ocorrem de forma natural no planeta; e vivem dentro de um ciclo natural onde os animais silvestres, como o morcego, são os seus hospedeiros (Jones et al. 2008). O problema ocorre quando as ações humanas quebram esse ciclo e o vírus, que apresenta capacidade de mutação e recombinação genética, fica exposto a organismos que não apresentam uma adaptação a ele. Nesse sentido, é o que acontece com o novo corona vírus com relação aos humanos.


No Brasil, nos últimos 50 anos, a remoção de mais de 1,8 milhão de Km2 de vegetação nativa nos biomas Amazônia e Cerrado para conversão em pastagens e monoculturas, levaram esses ecossistemas a um verdadeiro caos ecológico (Macedo et al. 2019; Strassburg et al. 2017). Essa degradação desenfreada gera condições para que o Brasil se torne o epicentro das próximas zoonoses, todos os dias o desmatamento avança sobre as populações de animais silvestres não assegurando a conservação da fauna e flora brasileiras.


Consequentemente, o desmatamento contribui para a escassez de água aumentando assim o aquecimento global como mostra os registros históricos na média global (Figura 3). Segundo o Relatório da Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas em Biodiversidade e Ecossistema (IPBES), atualmente, cerca de 1 milhão de espécies de plantas e animais estão em risco de extinção devido a destruição dos seus habitats naturais (Díaz et al. 2019).



Figura 3: Anomalias de temperatura em março de 2020 (1,51ºC na média global), em relação ao período de 1880-1920.

Fonte: GISS Surface Temperature Analysis (v4),NASA.Disponível em:<https://data.giss.nasa.gov/gistemp/maps/index_v4.html>



Consideremos, por exemplo, o macaco que é o hospedeiro do vírus da febre amarela que, em muitas regiões do Brasil, sendo alvo de uma série de campanhas de conscientização por parte das Instituições Ambientais (FIOCRUZ, 2018; ICMBIO, para apoiar medidas de conservação desses animais, já que a presença deles “assegura” que o ciclo natural do vírus seja mantido e que ele não atinja humanos. 2018; MMA, 2018). A situação é tão alarmante que em 2019, por exemplo, o desmatamento por queimadas na região amazônica aumentou 30%, com o estado do Pará sendo um dos mais afetados ( Figura 2).




Figura 2: Queimada da Floresta Amazônica. Foto: Reuters/Ueslei Marcelino. Disponível em: https://br.reuters.com/article/topNews/idBRKCN1VD007-OBRTP


A destruição de habitats naturais por atividades antrópicas (extração madeireira, mineração, pecuária etc.) provoca o aumento do contato de animais silvestres com os seres humanos, seja pela atividade antrópica em si ou pela adaptação de algumas espécies ao ambiente antropizado (Volpato et al. 2020). Aliado às monoculturas, toda a cadeia produtiva associada para sustentar o agronegócio e a produção de proteína animal global, refletem condições que tem favorecido o surgimento de doenças zoonóticas, como a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), as influenzas viária e suína e a encefalite espongiforme bovina (Doença da Vaca Louca) (Perrota, 2020).


Segundo o Relatório da Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas em Biodiversidade e Ecossistema (IPBES), atualmente, cerca de 1 milhão de espécies de plantas e animais estão em risco de extinção devido a destruição dos seus habitats naturais (Díaz et al. 2019), o que se torna um fator preocupante para a perda da biodiversidade. A relação das pandemias e zoonozes com a degradação do meio ambiente por fatores socioeconômicos, ambientais e ecológicos (Jones et al. 2008), representam cerca de 75% das doenças contagiosas recentes (Salyer et al. 2017) entre a população humana nos últimos anos.


Em suma, há tempos cientistas e ambientalistas de todo o mundo vêm fazendo um alerta e questionamentos sobre a nossa maneira de explorar os recursos naturais e da interferência humana nos habitats naturais. A conservação da biodiversidade é extremamente necessária mediante aos órgãos reguladores no âmbito da saúde pública e de criação de políticas públicas para o combate ao desmatamento e as queimadas na Floresta Amazônica.




Referências


Oliveira. D. B; Rabello. A. M. Impactos ambientais antrópicos e o surgimento de pandemias. Unifesspa contra a Covid -19. Disponivel em: https://acoescovid19.unifesspa.edu.br/images/conteudo/Impactos_ambientais_antr%C3%B3picos_e_o_surgimento_de_pandemias_Ananza_e_Danielly.pdf. Acesso em: 25 mai 2021.

Posts recentes

Ver tudo

18/06: Dia do Químico

No dia 18 de junho comemora-se o Dia do Químico, profissionais indispensáveis para o desenvolvimento da ciência e das tecnologias da nossa sociedade. Mas, por qual razão o dia 18 de junho é considerad