• Maria Luiza Valeriano

Cientistas avançam na remissão do HIV

Atualizado: Mar 15

Segundo paciente com resultado positivo de remissão do vírus é divulgado



O segundo paciente, nomeado Paciente de Londres apresentou remissão do HIV, 10 anos após o primeiro, conhecido como Paciente de Berlim. A ciência vem avançando com a cura do HIV e apresenta esperança para mais de 30 milhões mundialmente. Em relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), 37 milhões de pessoas vivem com o vírus. No Brasil, o Ministério da Saúde estimou cerca de 866 mil pessoas em 2017.


Panorama


Em março de 2019, a maior vitória da medicina contra o HIV foi divulgada e incitou discussão sobre a luta. A crise dos anos 80 marcou um período de terror e desinformação, além de instalar um preconceito que impede o combate efetivo até hoje. Conhecido na época como a “peste gay”, o medo e a estigma são declarados como os principais fatores responsáveis pelo aumento da epidemia, segundo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS).


“Entre o diagnóstico e a fase terminal, transcorriam às vezes poucos meses”, diz o infectologista David Uip, reitor do Centro Universitário Saúde ABC.

Hoje, a meta de saúde para muitos países é erradicar o vírus, como o caso estadunidense, com meta para 2030. De acordo com a Agência Aids, pela primeira vez, mais da metade das pessoas conscientes da presença do vírus estão em tratamento, o que reduz o risco de transmissão.


“O número de mortes por complicações resultantes da AIDS* caiu mais de 44% no mundo todo em comparação com 2004. No Brasil, o número anual de casos vem diminuindo desde 2013, quando atingiu o total de 43 269. Em 2017, baixou para 37 791”, divulgou a Agência Aids

Ano de avanços


Em 2019, cientistas nos Estados Unidos conseguiram remover o vírus do genoma animal. A pesquisa foi liderada por cientistas da Escola de Medicina da Universidade Temple, no estado da Pensilvânia, e do Centro Médico da Universidade de Nebraska, envolvendo técnicas de edição de genes. Realizada em ratos de laboratórios vivos, os testes foram positivos para a comunidade científica visto que não impediram o avanço da multiplicação do vírus, e sim erradicaram do organismo. A próxima fase é ter sucesso com primatas.


Em março, com parcerias da Universidade de Cambridge e Universidade de Oxford, o Paciente Londres recebeu transplante de células tronco de um doador que possuía a mutação genética que impede a infecção do vírus, que necessita do receptor CCR5 para proliferar. O paciente, com HIV-1, não apresentou taxas do vírus detectáveis após o procedimento e está em observação. Até então, a única maneira de tratar o HIV era com medicamentos que suprimem o vírus, que as pessoas precisam tomar durante toda a vida, colocando um desafio particular nos países em desenvolvimento, disse a principal pesquisadora, professora Ravindra Gupta.


Uma vacina contra a infecção entrou em sua fase final e será aplicado em 3 800 voluntários espalhados por oito países, incluindo o Brasil. A pesquisa foi realizada pela farmacêutica Janssen com os Institutos de Saúde dos Estados Unidos, o Exército Americano e o Fred Hutchinson Cancer Center, também nos EUA. Espera-se que em 2023 terão resultados definitivos.


“Vivemos um momento único na história e o mundo aguarda ansioso pelos resultados”, diz Beatriz Grinsztejn, infectologista da Fundação Oswaldo Cruz, uma das instituições que participará dos testes.

Ainda em março, pesquisadores estadunidenses conseguiram realizar um transplante entre dois soropositivos vivos. Pela primeira vez, no Hospital Johns Hopkins, em Baltimore, nos EUA, a paciente Nina Martinez doou um rim com sucesso.


Em julho, foi divulgado um implante que poderia revolucionar o tratamento contra o HIV. O implante do tamanho de um palito de fósforo possui uma molécula chamada MK-8591, que é aproximadamente 10 vezes mais forte como inibidor de HIV em comparação aos medicamentos no mercado. “Ele libera lentamente a droga e mantém um nível muito consistente da droga em seu corpo, e isso pode realmente impedir que você seja infectado” informou Mike Robertson, diretor de desenvolvimento clínico global para virologia da MSD, laboratório farmacêutico


Apesar dos avanços na medicina, a Agência Aids conscientiza, “As conquistas importantes na batalha contra a epidemia não representam um sinal verde para que as pessoas se descuidem da prevenção. A vitória definitiva contra a doença que apavorou o mundo nos anos 80 e matou muita gente ao longo das décadas seguintes depende muito ainda do comportamento responsável da população.”


*O HIV é o vírus que pode levar à síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS).


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