• Maria Luiza Valeriano

Brexit: uma divisão na ciência europeia

Atualizado: Mar 15

No dia 31 de Janeiro, o futuro da ciência pode ter mudado drasticamente. Frente a saída do Reino Unido da União Europeia, umas das principais produtoras de conhecimento mundial, a nação enfrenta um possível corte extremo no incentivo à pesquisa por parte dos programas europeus

A saída do Reino Unido da União Europeia é discutida desde 1973, quando integrou-se na Comunidade Econômica Europeia (CEE), a precursora da UE. Em 1975, foi realizado um referendo sobre a possível saída, o qual o resultado foi majoritariamente contra. Após o assassinato da parlamentar Jo Cox, partidária da permanência na União Europeia, foi realizado o segundo referendo em 2016. Testemunhas defendem que o autor do crime gritou “Grã- Bretanha primeiro!”, nome do partido de extrema direita defensora da saída e contra a imigração.


O referendo teve resultados contrários ao primeiro e marcou uma das decisões mais importantes da nação. Com a tensão, a então primeira ministra Theresa May iniciou as negociações. "Para o Reino Unido, o Brexit significa a busca de uma maior autonomia na definição de suas políticas domésticas, especialmente a comercial.", afirma Angélica Szucko, professora de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB).


No dia 9 de janeiro de 2020, após três anos de crise e medo, os parlamentares aprovaram o final das negociações para o início da retirada, no dia 31 de janeiro. A votação histórica acumulou 330 a favor e 231 contra. A Escócia, Irlanda do Norte e a capital Londres foram contra a saída, enquanto que o restante da Inglaterra e País de Gales, tanto nas regiões rurais como nas grandes cidades (à exceção de Londres) o resultado foi a favor, no referendo de 2016.


O novo cenário


Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica (Institute for Economic Research), de 2016, aponta que o Reino Unido será a nação mais afetada pela "Brexit", apesar de se esperar que outros países da União Europeia, principalmente a Irlanda, também sofram consequências na economia. Já a saída da nação poderá causar um rompimento interno também por parte da Escócia, que anunciou um referendo para decidir os próximos passos.

"As consequências do Brexit não são teóricas, são inumeráveis e, muitas vezes, subestimadas, no plano humano e social, financeiro e orçamental, jurídico e técnico. São consideráveis", advertiu Michel Barnier, negociador-chefe da União Europeia para o Brexit.

Rafał Kierzenkowski, consultor senior na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD), aponta em análise de 2016 que o poder econômico do Reino Unido é cresce consideravelmente dentro da União Europeia. Com impactos em todas as áreas, especialistas preveem uma dívida monumental. Segundo o Instituto de Estudos Físicos, instituto de pesquisa econômica com sede em Londres, o total da dívida externa poderá atingir 90% do PIB britânico no caso de uma saída sem negociação.


Outro ponto de tensão é o acesso aos dados de segurança e monitoramento da UE. Os britânicos têm interesse em continuar o fluxo de informações mas escândalos recentes de mau uso fora da UE balançam as possibilidades.


O futuro da ciência

“Nós evitamos o cenário de pesadelo de um Brexit sem negociação. Mas agora é a hora que decisões grandes são feitas. É um momento crítico para o futuro da pesquisa”, afirmou Martin Smith, gerente de políticas na Wellcome, financiadora de pesquisa biomédica em Londres.

Levantamento da Thomson Reuters, divulgado em 2014 durante a 1ª Cúpula Thomson de Experiência com Inovação, aponta que a Europa ocupa a 4ª posição de produção científica mundial. Em 2013, a região da ERA (European Research Area) contribuiu com cerca de um terço da produção científica mundial, na qual o Reino Unido é grande produtora, defende Lilian Nassi-Calò, doutora em Bioquímica pela USP e coordenadora da coleção SciELO Saúde Pública. A ERA se constitui como sistema de programas que integra o financiamento europeu para pesquisas.


Com a saída, o Reino Unido terá um ano enquanto decide o futuro com a União Europeia. Durante esse período, pesquisadores terão livre acesso. A diferença principal neste ano se consiste nas decisões sobre políticas e tratados futuros. Até então, programas como Horizon Europe financiavam grande parcela da ciência britânica. O Horizon Europe é um programa ambicioso a longo prazo para fomentar a pesquisa e inovação europeia. Pensado para incentivar a ciência, também implica no aumento de competitividade entre os países e impulsiona a criação de empregos. As prioridades cidadãs e inovação socioambiental são focos dentro do programa. O Horizon 2020 destinou 80 bilhões de euros à pesquisa de 2014 a 2020. No programa anterior, as instituições britânicas receberam 7 bilhões em subsídios. O planejamento do Horizon 2021, com fim previsto para 2027, destinará 100 bilhões de euros, segundo comunicado da Comissão Europeia.


Outro programa em perigo é o Erasmus+, Plano de Ação da Comunidade Europeia para a Mobilidade de Estudantes Universitários. O plano centralizado na União é responsável por facilitar a movimentação entre universidades do mundo e incentivar o intercâmbio acadêmico. No dia 20 de janeiro, o ministro da ciência Chris Skidmore comunicou sua vontade de continuar uma relação com o Horizon Europe por meio de uma “associação”. Esse acordo tem o potencial de permitir a participação dos pesquisadores britânicos de forma semelhante à atual.


"Algumas instituições, como a British Academy, tem atuado no sentido de defender uma cooperação científico-acadêmica próxima à União Europeia, inclusive com a manutenção do país no programa Erasmus+ e no European Research Council, o qual permitiria aos pesquisadores continuarem se candidatando para financiamentos" aponta a especialista Angélica Szucko.

Cientistas do Reino Unido recebem acima de 1 bilhão de euros anualmente de incentivos europeus até o momento, o que inclui infraestrutura e facilita colaborações. O ministro reafirma que o futuro da “associação” depende no resultado das negociações com legisladores europeus. Temas como imigração poderão influenciar nas regulamentações. Um exemplo desse impacto é o caso da Suíça. Segundo o professor de Ciência Política, Scott Lucas, da Universidade de Birmingham, “A experiência suíça em particular deve ser uma história de advertência. Quando os suíços votaram para restringir a livre circulação de pessoas, a UE revogou o acesso a financiamento e colaboração em ciências, minando o setor científico do país.”


Por outro lado, a saída poderá ter resultados positivos. A União Europeia possui regulamentos extensos sobre a produção e publicação das pesquisas realizadas. Os direitos de autor são discutidos por todo o aglomerado. Com inúmeros programas de incentivo à pesquisa, por vezes é necessário submeter a produção às editoras, para então ser publicada. “Os problemas de direitos de autor e conexos estão a ser amplamente discutidos no seio da União Europeia como na maior parte do mundo mas o volume de negócios envolvido na atual indústria da edição é de tal modo elevado que as alterações têm de ser muito ponderadas a fim de evitar uma crise grave no setor”, segundo Gabriela Lopes da Silva, da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, de Lisboa.


Como em toda independência, o necessidade de criar maneiras de contornar dificuldade poderá criar avanços. Matt Ridley, do Comitê de Ciência e Tecnologia da Câmara dos Lordes, acredita que a saída irá encorajar mais colaborações internacionais fora da Europa. Frente à um futuro incerto, Stephen Hawking se pronunciou em 2016, “Já se foram os dias em que poderíamos ficar sozinhos, contra o mundo. Precisamos fazer parte de um grupo maior de nações.”

Receba nossas atualizações