• Alef G. C.

As adaptações necessárias e o Cancelamento Social da Pandemia de Covid-19

Quando iniciei a série de artigos para a Revista Kratos neste ano de 2020, não imaginava o que viria com o passar dos meses, e mesmo que contasse com “tempo de qualidade” durante este período pandêmico para me dedicar a realização de prospecções e modelos de possíveis cenários baseados em dados, não conseguiria jamais prever esta atual “nova realidade”. Da mesma forma, que tem sido complicado para milhares de pesquisadores ao redor do mundo, dar uma previsão com prazo definido para que o mundo possa voltar ao “antigo normal”.




Também seria incapaz de imaginar que meu papel de mãe, iria superar todas as outras facetas que habitavam minha pessoa e desempenhavam diversos papeis e cargos, nos diferentes turnos que nós mulheres trabalhamos em um único dia, e que foi responsável pela perda do chamado “tempo de qualidade” para se dedicar a tarefas de produção intelectual. E assim, como muitas mães, me encontro em um quadro de total esgotamento físico e mental, sem conseguir acompanhar as informações e nem mesmo dar soluções as inúmeras tarefas que se acumulam em minha agenda. Mas por ter aprendido na ciência, que o olhar deve ser mais amplo e em diversas direções, que devemos avaliar o contexto socioeconômico e ambiental para que possamos interpretar os atos políticos e as ações que trarão impactos para saúde das populações em geral, é que me vejo obrigada a trazer estas reflexões em forma de artigo.


No último dia 12 de setembro, completamos 6 meses de distanciamento (privação e isolamento) social, inicialmente imposto por decreto governamental e nos últimos dois meses de forma voluntaria. Durante este período, mantivemos as devidas precauções para evitar a doença causada pelo vírus Sars-CoV-2, tal como preconizado pelas orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS). Entre diversas atividades novas em nossas rotinas, algumas ações merecem destaque: Filho em sistema de aula remota exigindo a presença constante de um acompanhante adulto para gerenciar os aplicativos e dar o suporte tecnológico necessário (um extremo luxo se comparado a realidade de milhares de crianças que não possuem sequer o acesso à internet neste momento, e não podem contar com a presença de um tutor ou responsável por seu acompanhamento escolar); dois adultos compartilhando o mesmo espaço de escritório e se alternando para “dar conta de tudo” (outro privilégio social e econômico – poder contar com a ajuda do parceiro na divisão de tarefas domesticas e familiares), mas obviamente com sobrecarga para a figura materna presente na relação (parece ter sido uma regra mundial o aumento da carga de trabalho e a sobreposições de atribuições femininas durante a Pandemia); mudanças nos hábitos familiares movidas a muito álcool gel para enluvar as mãozinhas das crianças (não preciso dizer que esta parte é a mais cheirosa e até divertida); a dura tarefa de higienização das compras de mercado (com banhos de bolhas de sabão em sacos de arroz, e duchas relaxantes para as frutas e legumes, entre as atividades de passar paninhos com álcool 70% em quase tudo que não se pode lavar); uso de máscaras/luvas/blusas de mangas compridas/calcas compridas/sapatos fechados para realizar atividades que demandassem entrar em ambientes fechados e também circular em ambientes, melhor parar por aqui.


Muitas famílias no primeiro semestre de 2020, vivenciaram o pior e o melhor de estarem em seus lares em situação de uso continuo do espaço por conta da Pandemia. Vale lembrar que, antes da Covid-19 as residências apresentavam um uso mais intenso no período noturno, onde todos os membros familiares retornavam para suas casas após as rotinas externas. O local consagrado como Lar, propiciava acolhida e tranquilidade às famílias em todo o mundo. No entanto, aquela realidade como conhecíamos, foi impactada diretamente pela Pandemia de Covid-19, e a rotina de acolhida no Lar sofreu distúrbios em seus conceitos mais amplos, com a tranquilidade cotidiana em desequilíbrio devido as adaptações necessárias, e que só aconteceram de fato com o passar dos meses pandêmicos. Diante desse quadro, os papeis de cada participante, das mais diversas composições familiares, começaram a ser redefinidos também de forma pandêmica, com resultados tão diversos quanto os resultados causados pelo vírus da Covid-19 nos países e sociedades. Tudo isto associado ao fato de não contarmos mais com inúmeras opções de lazer, devido ao “lockdown” decretado em várias cidades, o que impediu de levar as crianças ao parquinho ou até sairmos para uma caminhada livremente nas ruas e extravasar o estresse diário causado pelos conflitos desta adaptação forçada.


Neste período pandêmico mundial, vivenciamos crises emocionais, físicas, financeiras e todas as crises possíveis aos seres humanos sociáveis saudáveis com inúmeras variações entre o estado de bem estar e a falta dele. A Covid-19, trouxe outras doenças e mazelas para perto de nós, algumas em formato de surtos mas outras de modo pandêmico mesmo: Os esgotamentos físicos e mentais, a alta carga de trabalho para as mulheres, excesso de cuidado consigo e com os outros ou a falta do cuidado também, o não mais seguir as tendências da moda e manter o ritmo fashion do vestuário cotidiano, a hipervalorizarão da produtividade individual diante do panorama de crise, mudanças nas relações de trabalho com a quebra total da barreira entre os espaços públicos e privados, a positividade demostrada nas redes sociais quase tóxica para muitos, medos e incertezas sobre o futuro da saúde e da economia, a insegurança do mercado de trabalho com as possibilidades de demissão a cada minuto, e, toda a sorte de sentimentos disponíveis nos inúmeros dicionários existentes. A humanidade foi posta em xeque, e entrou em choque. Colapsou completamente! Surpreendentemente, diante das adaptações impostas para sobrevivermos a esta Pandemia, ocorre também o fortalecimento de ideais contraditórios a manutenção da vida coletiva como novas doenças sociais através de ações que buscam promover o aumento do individualismo, o ‘espalhamento’ do vírus da descredibilização da ciência, o ódio às minorias, a desvalorização da educação, a banalização das mortes ocorridas em decorrência das complicações causadas pela Covid, valorização do extremismo político no Brasil e nos Estados Unidos, mas grande parte dessas doenças tem sido impulsionadas pelos próprios governantes. Como resultado, podemos citar o fortalecimento de movimentos socias com pautas absurdas de anti-vacinas, anti-máscaras, terraplanismo, xenofobia, e outros palcos ‘fora da caixinha’ mas que ignoram os avanços científicos e suas conquistas até aqui. Ainda não sabemos ao certo, quantas pessoas são contaminadas diariamente nos países, pois os exames realizados não atendem a todos os cidadãos, ou são realizados somente nos doentes graves em ambiente hospitalar; qual o real número de mortes causadas pelo Sars-CoV-2, já que não há exames realizados para todos e é possível que ocorra morte sem o devido acesso ao diagnóstico correto; quantas famílias foram impactadas nestes últimos meses por todos os fatores já abordados acima; e, nem mesmo qual será o melhor caminho para retornar a um cotidiano de vida próximo da normalidade que vivíamos até março. Questões que precisam estar presentes no pensamento de grande parte da humanidade neste momento, pois poderá facilitar a busca para manter a vida na Terra visando melhores anos futuros. Alguns indivíduos desenvolveram ao longo deste período, o poder de se afastar da realidade atual e de tudo o que têm causado incomodo a ele. Esta nova percepção defensiva, ultrapassou os limites das classificações e ignora as posições de poder ou classe social, de tal forma que pode ser encontrada como um modo de fuga ou refúgio, de confronto da realidade e enfrentamento às incertezas, como uma negação para a realidade, ou somente como uma contrariedade as ideias circulantes. Os indivíduos que estão nas duas últimas categorias, ignoram o perigo iminente da nova doença e seguem suas vidas como se nada estivesse acontecendo de diferente no mundo. Esta atitude tem causado estranhamento aqueles, que como eu, abriram mão do luxo do convívio social e transformaram suas rotinas, assumindo as consequências de todas as adaptações necessárias para o enfrentamento responsável da Pandemia que o Mundo vive, e agora se veem no papel de “errados” ou “loucos”.


De acordo com a moda do ambiente virtual, foi declarado veladamente, no início deste Setembro, o “Cancelamento’ social da Pandemia de Covid-19”, em diversos países. Mas claro, que diante de toda similaridade política, Brasil e Estados Unidos, estão alinhadíssimos neste Cancelamento, nos quesitos políticos e econômicos principalmente. Sob diversos argumentos, segue o pseudo-cancelamento movido pelo poder da fé na “imunidade de rebanho”. Enquanto isto, o vírus permanece ativo e se espalhando livremente, ainda não há um tratamento efetivo ou eficaz para os quadros graves da doença, as pesquisas para o desenvolvimento da vacina estão aceleradas mas demandam alguns meses para que se obtenha um bom resultado, os profissionais da área de saúde estão sobrecarregados e contabilizam perdas de mão de obra – de material de proteção – de leitos e locais para atendimento. A conta não fecha! No cenário atual, existe uma parcela da população mundial que vivencia esta Pandemia com maiores danos, mais impactos, mais perdas, menos direitos, piores acessos aos serviços de saúde ou totalmente excluídos destes, muitos entrando para a realidade de miséria absoluta, e que não podem optar por manterem os cuidados com suas vidas diante da Pandemia de Covid-19 ou curtir o ‘Cancelamento social’ da Pandemia. É a população mais pobre e constituída por diversas cores e etnias, idades e gêneros, que estão na faixa mais baixa da pirâmide social, que são influenciados diretamente por todos os indicadores socioeconômicos mas que nunca são lembrados diante das ações dos mercados financeiros, que seguem adoecendo mais, morrendo mais, se expondo mais, empobrecendo mais, e sendo mais ignorada pelos governantes e principalmente pela parcela da sociedade que hoje curte o ‘Cancelamento’ irracional da Pandemia.


A Pandemia de Covid-19, trouxe para a humanidade muito mais do que o surgimento de uma nova doença causada por um vírus, trouxe à tona inúmeros problemas que precisamos enfrentar como seres sociais e não apenas biológicos.




Texto de Andreia Souto-Marchand, Mãe de um menino de 6 anos. Doutora em Medicina Tropical pelo Instituto Oswaldo Cruz/FIOCRUZ, atua na linha de pesquisa em Diagnóstico, Epidemiologia e Controle. Participa da coordenação do PUB-Houston no Texas/EUA (Pesquisadores e Universitários Brasileiros). Consultora e divulgadora cientifica, palestrante em saúde da mulher e família, colabora em projetos sociais voltados a comunidade brasileira residente em Houston. Voluntaria na escola pública Barbara Bush Elementary no Harris Country/Houston. É mestre em Biociências e Saúde pelo Instituto Oswaldo Cruz/FIOCRUZ, especialista na temática de Riscos Socioambientais e comunidades carentes urbanas. Bióloga formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro/UERJ. Participou da Comissão de Integridade Científica do Instituto Oswaldo Cruz/FIOCRUZ. Possui MBA em Gerenciamento de Projetos pela FGV-RJ. Nos últimos 20 anos, atuou em Saúde Pública com atividades de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação Tecnológica.


Sugestões de Leitura


Os números anteriores da Revista Kratos e seus artigos, inclusive os da área de saúde. BBC NEWS. Coronavírus: o que é distanciamento social e como ele pode reduzir (e muito) o número de infectados. Data: 25 março 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-52028319 ANTONIO PEREIRA. Indivíduo, lugar de fala, cancelamento, racismo e autoritarismo. Data : 29/08/2020. Disponível em: https://jornalggn. com.br/noticia/individuo-lugar-de-fala-cancelamento-racismo-e-autoritarismo/ Relatório: Trabalho e a vida das mulheres na Pandemia. Disponível em: http://mulheresnapandemia.sof.org.br/




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