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Arborização urbana e saúde pública

Você já parou para pensar na influência que uma árvore plantada na frente da sua casa pode ter sobre a sua saúde? Com a expansão dos grandes centros urbanos, muitas vezes de forma desordenada, é importante que se faça a introdução de vegetação nessas áreas para promover a manutenção da qualidade ambiental, bem como o bem-estar social. A arborização urbana pode ser definida como toda vegetação que compõe a paisagem urbana promovendo benefícios ecológicos e sociais.


As áreas verdes urbanas contribuem para um melhor conforto térmico nas cidades, gerado pelo sombreamento direto e pelo processo de evapotranspiração, no qual a energia solar é convertida em vapor, contribuindo para uma redução das temperaturas e aumento da umidade relativa do ar. Além do conforto térmico, a arborização urbana contribui para a diminuição da propagação de ruídos, redução da poluição do ar, redução de escoamento superficial e erosão, além de benefícios estéticos por meio das diversas cores de folhas e flores que modificam cenários monótonos de uma cidade.


A vegetação urbana também contribui significativamente para a qualidade de vida da sociedade, influenciando nas questões de saúde pública. A Organização Mundial da Saúde - OMS defini saúde como sendo “não apenas a ausência de doenças ou enfermidades, mas também a presença de bem-estar físico, mental e social”. Alguns estudos afirmam que espaços verdes ajudam na manutenção da saúde mental, bem como auxiliam na prevenção de doenças. Dessa maneira, a arborização urbana pode ser considerada um instrumento promotor de saúde.


A poluição do ar mata cerca de sete milhões de pessoas em todo o mundo a cada ano. Dados da OMS mostram que 9 em cada 10 pessoas respiram ar que excede os limites das diretrizes da OMS, contendo altos níveis de poluentes (ONU, 2019). Em 2013, a Agência internacional de Pesquisa em Câncer apontou a poluição do ar como uma das maiores causas de mortes por Câncer. Em um ano, 223 mil mortes por câncer de pulmão no mundo resultaram da poluição atmosférica.


Nesse contexto, a arborização urbana desempenha um papel fundamental no processo de purificação do ar dos centros urbanos, influenciando de forma direta na manutenção da saúde da população. Um estudo realizado pela pesquisadora Barbara A. Maher (2013) da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, demonstrou que as folhas das árvores são capazes de absorver mais da metade das partículas de poluentes atmosféricos. A pesquisa revelou ainda que a vegetação é capaz de eliminar metais pesados presentes no ar, como o chumbo e o ferro, demonstrando a importância e a eficácia da vegetação urbana.


Alcock, e colaboradores (2017) estudando a relação entre poluição do ar e hospitalizações por asma em áreas urbanas residenciais na Inglaterra, relataram que quando as concentrações de poluentes ambientais estão elevadas, há reduções na hospitalização por asma associadas às áreas que apresentavam maior cobertura vegetal urbana. Além dos benefícios da arborização urbana para o sistema respiratório, as árvores reduzem também a nossa exposição aos raios UV. Por isso é sempre importante procurar locais arborizados para a realização de atividades físicas. Áreas sombreadas reduzem em até 50% a intensidade das radiações UV (INCA, 2019).


As árvores também são responsáveis pela regulação da temperatura, pois criam um microclima, mantendo o ambiente mais fresco, mais úmido e mais oxigenado, podendo reduzir a temperatura local em até 8ºC (FAO, 2016). Diversos estudos demonstram a relação entre a arborização urbana e a redução de mortalidade por ondas de calor, reforçando a importância das árvores como um fator de mitigação de elevadas ondas de calor. Uma pesquisa realizada por Graham et al. (2016), demonstrou que a taxa de mortalidade relacionada ao calor é reduzida em 80% à medida que a cobertura das copas das árvores cresce em apenas 5%. A taxa de mortalidade também é reduzida à medida que áreas sem arborização recebem árvores em pelo menos 25% do seu território. Nesse sentido, a presença de áreas verdes é essencial no planejamento urbano para a manutenção da saúde térmica humana. O aumento da cobertura vegetal nos grandes centros pode reduzir de 40 a 99% as taxas de mortalidade por ondas de calor já projetadas até 2050 (Stone et al, 2014).


Da mesma forma, as árvores apresentam influência positiva também na cognição humana, uma vez que um ambiente bem arborizado estimula a ativação da área do cérebro relacionada à atenção involuntária e restauração cognitiva (MARTÍNEZ-SOTO, 2013). Estudos afirmam ainda que moradores de áreas arborizadas apresentam maior atenção e eficácia no gerenciamento da sua qualidade de vida. Ambientes arborizados apresentam também relação com a redução nas taxas de agressão doméstica, e nas mulheres há um efeito de melhor autodisciplina e concentração, e redução da impulsividade (KUO, 2001a; KUO, 2001b; TAYLOR, KUO e SULLIVAN, 2002).


Praticar exercícios em ambientes arborizados também contribui para o aumento na função cognitiva do indivíduo, além de melhorar o humor. Por exemplo, apenas 55 minutos de caminhada em contato com a natureza são suficientes para melhorar a performance cognitiva. Caminhadas mais curtas de apenas 15 minutos são capazes de produzir intensos sentimentos de vigor, recuperação e vitalidade (Bowler, 2010; Xiao, 2002; OKE, 1989). Espaços verdes estão associados também com a redução dos níveis de depressão, apresentando efeitos benéficos em pessoas com altos níveis de stress. Além disso, o contato com áreas arborizadas reduz os níveis de ansiedade, raiva, confusão e fadiga (MORITA, 2007; PARK, 2011). Imagens de ressonância magnética cerebral de moradores que vivem perto de uma área de floresta demonstraram uma melhor capacidade desses indivíduos de lidar com o estresse (KÜHN, 2017).


Estudos demonstram também que pessoas com altos níveis de depressão e transtorno de exaustão, quando imersas em tratamentos acompanhados de contato com a natureza, apresentam sintomas mais baixos de depressão, altas taxas de remissão, melhora de humor e maior perceção restaurativa (SONNTAG-ÖSTRÖM, 2014; BERMAN, 2012; KIM, 2009) As taxas de prescrição de antidepressivos também apresentaram redução significativa em pessoas que residem em áreas de maior densidade de árvores nas ruas de Londres, Inglaterra (TAYLOR, 2015).


As árvores também podem exercer influência no nosso sistema imunológico. Pesquisas indicam que, após uma imersão em um ambiente arborizado, há um aumento nos níveis de Células Exterminadoras Naturais, do inglês Natural Killer Cell (NK), sendo células do nosso sistema imunológico responsáveis por conter infecções no nosso corpo. Segundo a pesquisa, o aumento das células NK no nosso organismo pode durar até sete dias após uma viagem de imersão na natureza (LI, 2010; LI, 2008a; LI, 2008b).


Com relação a arborização urbana e as questões sociais, estudos apontam uma relação entre a presença de árvores urbanas e taxas de criminalidade. Wolf et al (2020), em pesquisa bibliográfica identificaram seis pesquisas demonstrando uma correlação positiva entre arborização urbana e criminalidade nos Estados Unidos. No estado da Filadélfia, EUA, a presença de cobertura de árvores foi associada a redução de ataques com armas de fogo, especialmente para jovens em áreas urbanas de baixa renda. Troy et al. (2012) fazendo uma comparação entre áreas arborizadas públicas e privadas descobriram que em áreas públicas arborizadas houve um impacto 40% maior na redução da criminalidade em comparação com áreas arborizadas privadas em Baltimore, EUA.


Curiosamente, Donovan and Prestemon (2012) identificaram que em Portland, EUA, árvores de pequeno porte, que impedem a visão, estão associadas com um aumento na taxa de criminalidade, enquanto árvores de grande porte estão associadas com a redução da criminalidade. De forma geral, os resultados dos estudos indicaram que a presença de árvores pode reduzir a incidência de vários tipos de crime, sendo este fenômeno influenciado por diversos fatores, tais como o tamanho, localização e estado de saúde das árvores.


Fazendo um comparativo com o Brasil, percebemos uma diferença cultural quanto a presença de árvores e o acometimento de crimes. No geral, as pessoas evitam a presença de árvores próximas as suas residências por se tornarem um possível local de esconderijo para criminosos. Uma simples árvore em um local não tão bem iluminado ou não muito movimentando é suficiente para gerar um sentimento de insegurança na população. No entanto, isto não deve impedir o desenvolvimento de projetos de arborização urbana, pois estes devem levar em consideração as características dos locais bem como as características das espécies vegetais que serão introduzidas. Como identificado na pesquisa de Donovan and Prestemon (2012), o porte das árvores exerce influência na questão da criminalidade local.


São notórios os efeitos positivos que ambientes arborizados podem exercer sobre os seres humanos. No entanto, o avanço da urbanização, muitas vezes de forma acelerada e desorganizada, acaba por suprimir o contato com ambientes urbanos arborizados, o que além de impactar a saúde da população, reduz as oportunidades de criação de laços afetivos, uma vez que são reduzidos os espaços de recreação e convívio social. As pessoas estão cada vez mais presas nas suas bolhas sociais, e muitas vezes é necessário que se fechem ruas e avenidas para que as elas possam andar e observar o seu redor, observar as pessoas ao seu redor.


Neste momento, onde vivemos em meio a uma pandemia e isolamento social, a importância dos cuidados com nossa saúde mental da sociedade ficou evidente. Sendo assim, a manutenção de uma boa saúde mental é baseada na manutenção das relações afetivas. Porém, nos dias de hoje, essas relações se tornaram virtuais. Dessa forma, precisamos manter em mente que ao término da Pandemia da COVID-19, as cidades precisarão elaborar formas de oferecer espaços para que as pessoas possam refazer os seus laços sociais, os quais foram perdidos no período de isolamento. Nesse contexto, as áreas verdes urbanas terão um papel fundamental.


Diante disso, é preciso informar à sociedade a importância e os benefícios das árvores para a sua saúde e bem-estar. É preciso também quebrar o paradigma de que pessoas com maior vínculo com a natureza são rotuladas como ``Abraçadoras de árvores``. Infelizmente, ainda há uma depreciação social muito grande para com aqueles que defendem a importância da manutenção das áreas verdes. Portanto, lembre-se, uma única árvore na calçada da sua casa tem um valor significativo.


REFERÊNCIAS

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