• Margareth Anjos

ANCESTRALIDADE – LEGADO e HERANÇA NEGRA

Primeiro cê sequestra eles, rouba eles, mente sobre eles Nega o deus deles, ofende, separa eles Se algum sonho ousa correr, cê para ele E manda eles debater com a bala que vara eles, mano Infelizmente onde se sente o sol mais quente O lacre ainda tá presente só no caixão dos adolescente Quis ser estrela e virou medalha num boçal Que coincidentemente tem a cor que matou seu ancestral.

Ismália - Emicida.



Um povo que não conhece a sua história está fadado ao insucesso, desta forma se faz necessário discorrer sobre o silenciamento que se abateu sobre as vozes, cultura e herança negra imposto pela dominação colonial, que assola o Brasil desde a sua invasão pelos portugueses. Historicamente, houve a tentativa de obliterar toda a grandiosidade das tradições africanas. A vida dos negros passou a ser conduzida por normas ditadas pelos colonizadores que estabeleciam limites rígidos, através da violência, e ainda os faziam conviver com as mais variadas situações degradantes. O instrumento de racialidade ao definir a posição humana de acordo com a brancura, estabeleceu a hierarquização dos seres humanos em conformidade com o distanciamento ou proximidade deste padrão preestabelecido.

(...) em cada momento da história a dominação se fixa em um ritual; ela impõe obrigações e direitos; ela constitui cuidadosos procedimentos. Ela estabelece marcas, grava lembranças nas coisas e até nos corpos; ela se torna responsável pelas dívidas. (Foucault, 1979, p. 25).


O resgate histórico e a busca da memória, através da oralidade e da criação literária, podem funcionar como um importante instrumento para a revisão historiográfica e literária brasileira, o que pode propiciar uma reflexão acerca do silenciamento e da estereotipização que formaram as identidades dos negros e negras no nosso território. O legado deixado pelos nossos ancestrais pode estar presente em nossas vidas, também de maneira subjetiva. Essas heranças ancestrais fazem parte das nossas raízes para além das memórias efetivas. Há ainda as manifestações no comportamento que atravessam gerações. A ligação com o nosso passado existe independente do nosso desejo. Somos produto de séculos de acontecimentos, da influência de milhares de pessoas, resultamos de povos que se juntaram, de suas influências e até dos alimentos consumidos. Toda essa história está impressa em cada um de nós, nas células, nos genes. A reconexão com a nossa ancestralidade é substancial para tecer e entender a nossa história. Essa analogia pode curar feridas imemoriais, positivar heranças ora consideradas negativadas, reforçar raízes, religar elos.

Reatar os nós africanos que foram desprendidos violentamente é compreender que negros e negras não vieram exclusivamente da escravidão. É nos alforriar da percepção de valores que nos foram impostos, é a permissão para metamorfosear a triste realidade de que o destino do negro é tentar ser branco. “Que quer o homem? Que quer o homem negro? ”. Sua resposta: “O negro quer ser branco” (FANON, 2008, p. 27). O olhar da sociedade, despido da riqueza das influências da ancestralidade africana, transforma o corpo negro em um objeto esvaziado. De outra forma, esse mesmo corpo precisa se converter em resistência e assumir sua visibilidade e se posicionar dentro do mundo colonial. Assim, em uma luta política, o invisível dará lugar à afirmação, diferente de um projeto que reforça a negação. O traço histórico, construído por uma sociedade eurocêntrica, condensa o racismo desenvolvido por uma política de embranquecimento, fundamentada pelo mito da democracia racial apresentado por Gilberto Freyre, em Casa Grande e Senzala. Essa foi a solução apresentada para disfarçar a barbárie imposta pelo período escravocrata que ainda tem sequelas espalhadas, e tenta impedir projetos ou alternativas de cidadania, cerceando o acesso a lugares, papéis e posições sociais. Tal subterfúgio influencia diretamente na percepção dos descendentes dos raptados da África e escravizados no Brasil. Esse recurso excluí a visibilidade de processos históricos e personagens notáveis e ilustres como Virgínia Leone Bicudo, primeira psicanalista negra no país; Dandara Palmares, mulher de Zumbi dos Palmares; a filosofia Kemética que surgiu na África; Exu, orixá da comunicação e da linguagem; as resistências quilombolas e as lutas abolicionistas. Todo esse apagamento danificou a construção da identidade de um povo. Essa riqueza da luta e da cultura afro-brasileira e africana é por nós desconhecida. Aprendemos uma história eurocêntrica que nos coloca de costas para a história e para a cultura africana, assim como a não valorização dos nossos ancestrais. Oportunizar o acesso ás vozes ancestrais é fazer com que o elo verdadeiro dessa corrente seja construído. Surge a perspectiva positiva de dialogar com informações preciosas da história construindo uma trajetória com um novo valor estético, social, historiográfico e com a consciência de um valor coletivo que inspire e transforme. Conceição Evaristo nos narra essa reconstrução em Vozes-Mulheres,


A voz de minha bisavó ecoou criança

nos porões do navio.

Ecoou lamentos

de uma infância perdida.


A voz de minha avó

ecoou obediência

aos brancos-donos de tudo.


A voz de minha mãe

ecoou baixinho revolta

no fundo das cozinhas alheias

debaixo das trouxas

roupagens sujas dos brancos

pelo caminho empoeirado

rumo à favela.


A minha voz ainda

ecoa versos perplexos

com rimas de sangue e fome.


A voz de minha filha

recolhe todas as nossas vozes

recolhe em si as vozes mudas caladas

engasgadas nas gargantas.


A voz de minha filha

recolhe em si a fala e o ato.

O ontem – o hoje – o agora.


Na voz de minha filha

se fará ouvir a ressonância

o eco da vida-liberdade.

(EVARISTO, 2008, p. 10-11)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BÂ, Hampâté Amadou. A tradição viva. In KIZERBO, Joseph (Coord.). História Geral da África. I. Metodologia e pré-história da África. São Paulo: Atica/UNESCO, 1982.


EVARISTO, Conceição. Poemas da recordação e outros movimentos. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.


FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: Editora UFBA, 2008


FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro, Graal, 1979.


FREYRE, Gilberto. “Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal”. São Paulo: Global, 2006.


LOPES, Nei. Enciclopédia brasileira da diáspora africana. São Paulo: Selo Negro, 2004.

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