• Rachel Hauser Davis

A criatividade na luta contra o tráfico de barbatana de tubarões


O tráfico de barbatanas de tubarão é um comércio ilegal que vem acelerando de forma alarmante o declínio da população de tubarões em todo o mundo.


A prática, chamada em inglês de “finning” (fin = barbatana) compreende o ato de remover apenas as barbatanas dos tubarões e, geralmente, descartar o resto do animal de volta ao oceano. Os tubarões geralmente ainda estão vivos quando descartados, mas, sem suas nadadeiras, são incapazes de nadar, afundando e morrendo sufocados ou predados por outros animais. Estimativas atuais (2020) sugerem que cerca de 100 milhões de tubarões são mortos todos os anos por humanos, sendo esta uma estimativa conservadora, podendo este número chegar perto de 273 milhões de mortos a cada ano. Além de extremamente cruel, esta prática vem causando declínios extremamente preocupantes destes animais, levando a danos catastróficos ao ecossistema marinho e a perdas expressivas da biodiversidade.



Barbatanas de tubarão frescas secando em uma calçada em Hong Kong. Fonte: cloneofsnake® (https://www.flickr.com/photos/cloneofsnake/6191090547/in/photostream/)

Os novos dados divulgados pela União Internacional para Conservação da Natureza (International Union for Conservation of Nature, IUCN) classificam mais 39 espécies de tubarões e raias como “Em risco de extinção”, e o número total de espécies agora classificadas como em risco de extinção representa 36 % de todas as espécies de tubarões e raias. Isto se deve, principalmente, à degradação de seus habitats devido a atividades antropogênicas e à sobrepesca, aliada a falta de legislação adequada, como ocorre na prática de “finning”.


Esta prática aumentou significativamente desde 1997, em grande parte devido à crescente demanda pelas barbatanas de tubarão para sopas e curas tradicionais, particularmente na China e em seus territórios, como consequência do crescimento econômico desta região. Muitos pescadores preferem praticar o “finning” ao invés de trazer os tubarões inteiros para o mercado, pois as barbatanas são muito mais valiosas do que o resto do corpo destes animais, muitas vezes sendo vendidos por valores em torno de US$ 1.100 o quilo.


Embora está prática seja proibida em muitos países, ainda existe um comércio ilegal enorme que necessita de fiscalização e de abordagens criativas para começarmos a lidar de forma efetiva com o problema.


Identificar espécies protegidas de tubarões apenas pelas suas barbatanas é extremamente desafiador. Dentre as diversas iniciativas aplicadas atualmente para atingir este objetivo e combater o “finning”, uma das mais fidedignas é a identificação das espécies através de análises de DNA, com diversos estudos já realizados ao redor do mundo. Esta é, porém, ainda uma técnica cara que requer equipamentos especializados e profissionais altamente qualificados. Como as barbatanas são vendidas aos lotes, muitas vezes na casa de centenas ou até milhares de indivíduos, este tipo de análise se torna impraticável para fiscalizações de rotina.


Portanto, verificou-se a necessidade de soluções inovadoras para este problema. Neste cenário, foi noticiado esta semana que as primeiras réplicas de barbatana de tubarão impressas em 3D do mundo vão ser usadas contra comerciantes ilegais de vida selvagem.


Neste caso, a TRAFFIC (https://www.traffic.org/), uma organização não governamental líder que trabalha globalmente no comércio de animais e plantas selvagens em um contexto de conservação da biodiversidade e do desenvolvimento sustentável, criou um conjunto de réplicas de barbatanas impressas em 3D a partir de barbatanas de tubarão secas reais de diversas espécies comercializadas. Através de uma ferramenta de identificação que é fácil de usar e que permite tomadas de decisão mais rápidas e confiáveis sobre a identificação de barbatanas de tubarão, esta pioneira iniciativa irá auxiliar autoridades alfandegárias e policiais em todo o mundo neste trabalho essencial para ajudar a conter o comércio ilegal de animais selvagens,


As réplicas foram desenvolvidas com o apoio do Departamento de Silvicultura, Pesca e Meio Ambiente da África do Sul e da especialista em tubarões dos EUA Debra Abercrombie e com a participação ativa de vários provedores de serviços sul-africanos comprometidos.


O cidadão comum também pode ajudar no combate comércio ilegal de barbatanas de tubarão tomando atitudes sustentáveis como não comprar este tipo de produto, não tomar a famosa “sopa de barbatana de tubarão” e, principalmente, não comprar ou consumir estes animais, que no Brasil são vendidos na forma de “cação”, escondendo sua verdadeira origem como sendo, de fato, tubarões.


Rachel Ann Hauser-Davis

Bióloga, Mestre e Doutora em Química Analítica

Pesquisadora

Fiocruz



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