• Flavia Barros

A ciência não pode ser compreendida apenas por cientistas.

Por conta da pandemia do SARS-CoV-2, muitas pessoas espantaram-se ao descobrir que diversos profissionais da área da saúde não apresentam uma formação científica suficiente que os permita interpretar dados científicos com confiança. Isso levou a uma disseminação descontrolada de informações divergentes sobre a eficácia de determinados fármacos em um momento em que o mundo buscava desesperadamente um tratamento para a COVID19. Em consequência, muitos correram às farmácias e automedicaram-se, expondo-se ao risco de efeitos colaterais importantes além da falsa sensação de proteção que, por vezes, os fez reduzirem outras medidas de proteção como o uso de máscaras e distanciamento físico. Nunca ficou tão clara a necessidade de a ciência não ser compreendida apenas por cientistas.

A formação dos profissionais de saúde e outras áreas é, na sua maioria, bastante técnica e uma maior exposição ao método científico se dá apenas pela participação do profissional, ainda enquanto estudante, em projetos de pesquisa. Quando realizados durante um curso superior, chamamos esses projetos de iniciação científica. A verdade é que nem todos os alunos de graduação desenvolvem uma iniciação científica e acabam formando-se com um conhecimento bastante limitado sobre o método científico.

Ao conduzir um projeto de iniciação científica, o futuro profissional aprende a formular questões para estudar e entender um fenômeno. Neste exercício, deve ser proposta uma hipótese para explicar uma observação que depois será testada por experimentos planejados e conduzidos com a orientação de um cientista experimente, o professor. Para analisar os dados gerados, é necessário aprender e aplicar métodos estatísticos e estudar a literatura científica disponível na área para discutir os resultados obtidos. É bastante comum a participação destes estudantes em congressos científicos para apresentação de seus resultados à comunidade científica. Assim, um profissional em formação, que tem a oportunidade de participar de um projeto de pesquisa, deve aprender a gerar dados, analisá-los e interpretá-los, quer tais dados sejam de sua própria pesquisa ou publicados por outros pesquisadores.

A iniciação científica é o ponto de partida na carreira de um cientista. Para continuar sua formação científica, após a graduação ele cursa um mestrado acadêmico seguido de um doutorado. Enquanto no Brasil o mestrado tem duração média de 2 anos, um doutorado pode durar de 3-5 anos, chegando a períodos mais longos em outros países. Alguns pesquisadores podem ainda desenvolver projetos de pesquisa após o doutorado em programas conhecidos como pós-doutorado. Neste estágio da carreira, o jovem pesquisador começa a ter mais liberdade para planejar estudos e experimentos embora ainda seja supervisionado por um cientista que lidera o grupo de pesquisa ao qual faz parte.

No Brasil, muitos cientistas são também professores universitários visto que a maioria da pesquisa brasileira é realizada em universidades públicas, federais e estaduais. Por isso estudantes destas faculdades geralmente têm mais oportunidades para acompanhar projetos de pesquisa de seus professores e mesmo realizar uma iniciação científica. Embora tal ambiente seja propício para aqueles que aspiram ser cientistas, ele não é suficiente para oferecer um adequado ensino do método científico aos demais profissionais que deixam a vida acadêmica ao formarem-se.


Como nós, cientistas mas também professores universitários podemos então contribuir com a formação de mais profissionais que tenham a capacidade de interpretar artigos científicos?


A resposta é simples: estimulando a leitura, interpretação e discussão de dados científicos.

Nascida de uma ideia com colegas meus de pós-graduação na FMVZ-USP, o “Journal Club”, como costumo hoje chamar com meus alunos de graduação e mestrado na UTFPR, onde sou professora, é uma atividade de estudo em grupo de artigos científicos de interesse dos participantes. Através de reuniões periódicas, artigos pré-selecionados são enviados a todos os membros do grupo que os devem ler antes do encontro. Em esquema de revezamento, cada aluno tem a oportunidade de escolher e apresentar um artigo em uma das sessões do Journal Club. Geralmente apenas um artigo é estudado por encontro.

O professor deve criar um ambiente acolhedor, para estimular a discussão e o aprendizado através da formulação de perguntas e respostas pelos próprios alunos. Recomendo a organização do grupo em um círculo ou roda de discussão. Tal formato permite a desconstrução da hierarquia entre os participantes, oferendo um ambiente mais acolhedor para a discussão. No Journal Club o professor é apenas um guia, um facilitador, alguém com um pouco mais de conhecimento sobre técnicas e o método científico para permitir que os alunos possam, com o passar do tempo, desenvolver a capacidade de interpretar os dados apresentados nos artigos científicos. Os alunos devem aprendem a identificar as hipóteses propostas, contrastar as conclusões com os resultados obtidos, desenvolvendo assim a capacidade de traçar conclusões de acordo com o material apresentado no artigo.

Podemos dizer que os objetivos principais do Journal Club são o desenvolvimento do pensamento crítico e a conquista da independência do leitor na interpretação de publicações científicas. Como benefícios naturais dessa prática, temos pessoas com maior capacidade de argumentação, maior domínio de testes estatísticos, interpretação de texto e mesmo melhora do domínio da língua Inglesa, visto que a imensa maioria dos artigos trabalhados foram publicados em Inglês.

Dependendo da maturidade científica dos alunos mais experientes, um Journal Club bem estruturado pode eventualmente evoluir ao ponto de dispensar a presença de um professor, o que é o caso de grupos desenvolvidos na pós-graduação. Ao integrar um grupo de pesquisa no Canadá, durante um período de pós-doutorado, ficou clara para mim a importância de tal prática mesmo para aqueles que escolheram uma carreira acadêmica, visto que não apenas o grupo ao qual eu fazia parte reunia-se quinzenalmente para o Journal Club, como praticamente todos os outros grupos do mesmo instituto também o faziam. Além disso, a participação ativa em tais reuniões não era considerada opcional. Para um cientista, a atualização sobre novas pesquisas e descobertas importantes em sua área e a prática do pensamento crítico devem ser constantes ao longo de sua carreira.

Mesmo que todos os demais profissionais formados não sigam uma carreira que empregue o método científico, o seu ensino e sua prática, mesmo que por curtos períodos durante sua formação, permitirão a construção de uma sociedade mais crítica e menos suscetível a informações sem embasamento científico e notícias falsas.


A organização dos participantes de um Journal Club em um círculo desconstrói hierarquias e cria um ambiente mais acolhedor aos alunos, principalmente os menos experientes, para fazerem perguntas e participarem ativamente da discussão. O professor deve apenas atuar como um guia, eventualmente oferecendo um maior embasamento técnico quando necessário. A apresentação e discussão do artigo deve ser, na sua maioria, conduzida pelos alunos.

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